Pobres Criaturas (2023)
No romance de Mary Shelley, Victor Frankenstein brinca com a ciência para dar vida a um corpo inanimado. O que o motiva será apenas e somente o impulso da descoberta: o fazer algo porque pode, sem pensar nas consequências do seu acto. Isso é claro quando, após vislumbrar a sua criação, Victor se arrepende amargamente, e a renega. A pobre Criatura (pois Victor nem se dignou a dar-lhe um nome) vê-se forçada a aprender o mundo sozinha, enquanto persegue Victor para que este assuma a responsabilidade, e lhe diga porque é que foi criado. Qual o seu propósito?
Claramente A Criatura de Frankenstein não é fêmea. Caso fosse, o seu propósito nunca seria uma incógnita. A sociedade (leia-se, homens) trataria de lhe proporcionar um leque limitado de ofertas relativamente ao papel que deveria assumir. No top 3 estão: esposa, dona de casa, mãe. Em Genesis, Eva foi criada com o propósito de ser a mulher de Adão, porque este “se sentia sozinho”. Depois de se atrever a comer a fruta proibida da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, Eva é condenada, por Deus, a sofrer no parto e a obedecer ao seu marido*. A própria Criatura de Frankenstein pede-lhe que crie uma companheira, também com um propósito bem definido de lhe fazer companhia. Vê o seu desejo concretizado, passados mais de cem anos, no A Noiva de Frankenstein (1935), de James Whale.
Existem muitos pontos de contacto, é claro, entre o Frankenstein de Mary Shelley e o filme de Yorgos Lanthimos, Pobres Criaturas (2023). Estes pontos já vêm do romance homónimo do escocês Alasdair Gray, que é aqui adaptado por Tony McNamara. Mas mais interessantes ainda que as semelhanças, são as diferenças entre estas histórias. No lugar de Victor Frankenstein temos Godwin Baxter (Willem Dafoe), um excêntrico cirurgião movido pela mesma curiosidade científica, que neste caso herdou do seu implacável pai. Ao contrário de Victor, no entanto, Godwin assume a paternidade da sua “Criatura”, conferindo-lhe o seu apelido e uma identidade própria: Bella (Emma Stone). Godwin e o seu assistente Max McCandles (Ramy Youssef) irão também dar-lhe uma educação, cujo progresso será documentado como se de uma experiência científica se tratasse.
O empirismo de Godwin é a chave para a forma como Bella entende o mundo. Nada é assumido a priori, só a experiência nos pode dar respostas. As coisas têm de ser testadas para distinguirmos o que nos agrada ou desagrada. O que faz sentido ou não. É preciso provar da Árvore do Conhecimento para saber a diferença entre o bom e o mau.
Não faltam homens na vida de Bella que a querem ver limitada a um papel que lhes seja conveniente. O carinho que Max McCandles tem por ela, e que o leva a propor-lhe casamento, não o impede de a ver como uma criança inocente. Por isso lhe custa a engolir que a sua curiosidade sexual e por conhecer o mundo a levem a fugir com o libertino Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo). Quando, durante a sua viagem juntos (que passa por Lisboa, Alexandria, Paris), Bella demonstra interesses para além dos dionisíacos promovidos por Duncan, é a vez de este reagir mal e a tentar controlar. Apesar disso, Bella prossegue no seu desenvolvimento e explora a filosofia, ajudada pelos novos amigos: Martha (Hanna Schygulla) e Harry (Jerrod Carmichael). Harry ainda tentará converter Bella ao seu cinismo, mas sem sucesso. Por fim, também o sádico General Alfie Blessington (Christopher Abbott) irá tentar forçar Bella a encaixar na sua ideia de esposa dócil e sem apetites.
O que têm em comum todos estes homens é o facto de quererem moldar Bella à sua própria imagem. Caminhamos todos por esta vida com um vazio no peito que tentamos preencher com a presença do outro, neste caso de uma mulher. Mas, para os homens com quem Bella se vai cruzando, esse vazio tem um recorte bem definido, e tudo o que não encaixa deve ser limado e deitado fora. Quando Bella cresce para além da caixa onde a querem meter, os homens ressentem-se, imploram, prendem, tornam-se violentos. Até parece que Bella é A Pior Pessoa do Mundo (2021), só porque é uma mulher que, pasme-se, pode mudar de ideias e querer hoje algo diferente do que lhe bastava ontem.
A pergunta mais importante que Bella faz, e não deixa de fazer ao longo de todo o seu percurso, é: porquê? Não basta dizerem-lhe que algo tem de ser assim. Ela tem de experimentar por si mesma para saber. Bella enfrenta tanto os prazeres como as atribulações com o mesmo espírito científico. Em vez de ceder ao desespero, procura soluções. Permite-se cometer os seus próprios erros. Apesar do seu próprio ressentimento inicial por perder a filha adotiva, é Godwin quem acaba por mostrar maior compreensão e abertura para com Bella. Talvez porque consiga ver, nela, a atitude empírica perante a vida que o move, sem o sacrifício que ele teve que sofrer às mãos do seu pai, e que o marcou (literalmente) para a vida. Queremos sempre melhor para os nossos filhos do que aquilo que tivemos.
Em Pobres Criaturas, Lanthimos não está no seu modo sádico-niilista de A Lagosta (2015) ou O Sacrifício de Um Cervo Sagrado (2017), filmes que, ao contrário deste, Lanthimos também escreveu. O que coloca no ecrã está mais próximo de um universo Tim Burton ou Terry Gilliam. Talvez para nos mostrar que ainda estamos no “Yorgoverso”, pega nos truques de câmara que já em A Favorita (2018) pareciam excessivos, e carrega neles ao ponto da mania. Longos zooms e close-ups nos actores quando estão a ter uma conversa; o uso da lente olho-de-peixe e do preto e branco; etc. Na composição de alguns cenários garridos, no uso de câmara lenta acompanhada de música solene, e até mesmo no grafismo dos separadores entre capítulos, Lanthimos parece imitar os maneirismos de um Lars von Trier no período non grata – Anticristo (2009), Melancolia (2011), Ninfomaníaca (2013). E isso é uma pena, não só porque para fazer de Lars von Trier ninguém melhor que Lars von Trier; e também porque os filmes (e o humor negro) de Lanthimos são mais eficazes quando ancorados num realismo sóbrio.
* A Adão, que também provou do fruto, Deus só disse, basicamente, “a partir de agora se queres comer trabalhas, malandro”.