A Sala dos Professores (2023)
Honestidade, transparência, justiça. Estes valores que, enquanto indivíduos, prezamos e procuramos, podem ser perigosos para as instituições a que pertencemos, ao ponto de as ferir mortalmente. Governos, exércitos, famílias, casamentos, podem ver-se ameaçados quando um dos seus membros age sem considerar o conjunto maior, ainda que o faça com as melhores intenções. A professora do ensino primário Carla Nowak (Leonie Benesch) irá descobrir isso, no filme de İlker Çatak, candidato ao Óscar de Melhor Filme Internacional, A Sala dos Professores (2023).
Nowak é uma excelente professora. Assim que entra na sala de aula, conquista a atenção dos seus alunos, e conduz os trabalhos como se de uma orquestra se tratasse. Fá-lo a partir de uma atitude de respeito mútuo, sendo firme, mas não severa; com abertura, mas sem cedências. Nowak é uma idealista, e rege-se pelo princípio de que a escola é uma instituição que existe para servir os alunos. E a melhor forma de os servir é ser transparente para com eles.
Mas os alunos não são o único grupo que forma a instituição escolar. Existem, além deles, os professores, a directora, os funcionários administrativos, e os próprios pais dos alunos, que cada vez mais têm um papel interventivo nos assuntos escolares, organizando-se e ganhando influência em grupos no Whatsapp. O bom funcionamento na instituição baseia-se no equilíbrio entre todas estas partes interessadas. E Nowak vai perceber que uma dessas partes (os alunos) não é necessariamente mais importante que as restantes.
Quando confrontada com uma falha no seu funcionamento, uma instituição precisa, por vezes, de encontrar um bode expiatório. Ultimamente, tem havido roubos no liceu. Professores a quem desapareceu dinheiro. As suspeitas caem sobre os alunos, e têm início interrogatórios que colocam pressão nos delegados de turma para denunciarem colegas. A professora Nowak não se sente à vontade com este ambiente, nem com os métodos usados pelo seu colega, o professor Liebenwerda (Michael Klammer). Quando um dos alunos é finalmente (e injustamente) acusado, Nowak decide tomar agir por conta própria para proteger a sua turma.
Montando uma armadilha, a professora Nowak descobre (ainda que sem provas conclusivas) que o culpado pelos roubos pode, afinal, ser uma funcionária administrativa. Quando confrontada, esta rejeita completamente a acusação. Nowak dirige-se então à directora, e é aí que coloca em movimento uma máquina imparável, com consequências para todo o funcionamento da instituição escolar.
Numa escalada filmada como se de um thriller se tratasse, Nowak irá perder o respeito dos seus pares, dos seus alunos, dos pais, e talvez de si mesma. A cada passo aparentemente acertado que Nowak dá, seguindo os seus princípios, mais fere a instituição, e a transparência dá lugar à opacidade do lodo em que se afunda. Ironicamente, a sugestão é de que preterir a justiça pelo bode expiatório teria feito menos estragos, prejudicado menos pessoas.
A Sala dos Professores coloca o indivíduo contra a instituição, mas não parece oferecer respostas para as questões que levanta. Não tem de o fazer, mas parece faltar-lhe uma peça, algo que lhe conferisse outro significado. Além disso, ao ilustrar a escalada de consequências advindas das ações da professora Nowak, roça várias vezes o ridículo. Os alunos agem como adultos, mostrando, à vez, integridade e falta de escrúpulos precoces para a sua idade. Os colegas de Nowak agarram-se tanto a um traço específico da sua personagem que parecem caricaturas. E nunca, em momento algum do filme, é atribuída uma vida fora das paredes da escola. Leonie Benesch interpreta Nowak de forma tão rígida que não parece uma pessoa real. Talvez seja uma armadura que a verdadeira Nowak usa para poder enfrentar uma turma todos os dias. Como um comandante de um exército. Ou uma Tár (2022) a conduzir a sua orquestra.