Parece que Estou a + (2023)
Durante os primeiros 15-20 minutos de Testament (2023), o novo filme do quebequense Denys Arcand, apercebi-me de duas coisas. Uma, do quanto tenho vontade de ver um filme que consiga pegar nas “culture wars” em que vivemos, e dizer algo de inteligente e incisivo sobre os desentendimentos, a falha de comunicação, entre o velho mundo e o novo, no que diz respeito a assuntos de género, etnia, representação, etc. Duas, de que o filme de Arcand não é esse filme.
Parece-me que é um acto de equilíbrio delicado, conseguir falar sobre o choque entre o homem branco cisgénero – no seu palácio construído às custas do colonialismo e opressão – e os movimentos revisionistas que procuram dar voz aos marginalizados da história; sem ceder a caricaturar um dos lados, ou a pregar aos convertidos. Acho difícil alguém não reconhecer que existe um debate que precisamos de ter, enquanto sociedade, e que vai necessariamente causar dores de crescimento. Mas perspetivas que assumem, à partida, que um dos lados tem a razão absoluta e o outro tem de se acomodar em silêncio, ou arrisca ser ostracizado; que partem do princípio de que o passado é feito de heróis e vilões e é uma questão de decidir quais são quais; não compreendem o que é a história. E talvez já devessem ter percebido que, por mais que a mudança seja uma questão de justiça, não é impondo ao outro uma visão do mundo que vamos lá. Algures pelo caminho, começamos a ver o debate com o outro como uma fraqueza, uma cedência inaceitável das nossas posições. Quando visões diferentes do mundo se manifestam contra a nossa, bloqueamos, cancelamos, rejeitamos. Essa negação do diálogo é maior sinal da fraqueza das nossas convicções do que o contrário.
Não que Testament se digne a fazer a ponte para esse diálogo, apesar de ao início ainda mostrar promessa. O seu protagonista é um elemento do “velho mundo”, em mais que um sentido. Jean-Michel Bouchard (interpretado pelo actor-fetiche de Arcand, Rémy Girard), é um arquivista aposentado que vive num luxuoso lar de terceira idade. Olha para a sua vida sem grande mágoa ou paixão, e recebe o seu fim com tranquilidade. Ao mesmo tempo, vê o mundo à sua volta sofrer mudanças e convulsões, e filtra-as por um olhar crítico, e algum humor.
Em tempos, Bouchard escreveu uns romances que ninguém leu, e um dos melhores gags do filme acontece logo ao início, quando o convidam para receber um prémio literário de carreira. De todos os contemplados, Bouchard é o único homem, o único branco. As restantes contempladas tiveram, literalmente e figurativamente, de o contornar como um obstáculo para receber os seus prémios. Bouchard é excluído do debate pós-cerimónia, porque ninguém quer saber o que tem para dizer face à experiência feminina do restante painel. Além disso, o prémio que recebeu vai-se a ver foi engano. Era para outro Bouchard. Não faz diferença nenhuma.
Apesar da mão pesada, até aqui eu ainda achava que Testament poderia surpreender-me pela positiva. Eu não segui a carreira de Arcand para além dos seus dois filmes de maior sucesso: O Declínio do Império Americano (1986) e a sua sequela, As Invasões Bárbaras (2004). Lembro-me destes serem filmes bem escritos, o primeiro uma espécie de Woody Allen em francês, sobre as relações entre homens e mulheres; o segundo mais sério, lidando de frente com a morte, a doença, e o mundo pós 11 de Setembro. É verdade que os seus filmes desde então passaram bastante despercebidos, mas acho que tinha justificação para pelo menos esperar um pouco mais.
A partir do momento em que activistas acampam à porta do lar de terceira idade onde reside Bouchard – exigindo que a sua directora (interpretada por Sophie Lorain) faça alguma coisa em relação a um mural pintado numa parede interior, que representa a colonização das Primeiras Nações do Canadá por parte dos franceses – o filme começa a derrapar e nunca mais se levanta. Os activistas são figuras de cartão que não vão além da falta de noção e da apropriação cultural. Os políticos idem, não passam de oportunistas ou incompetentes. O tom do filme desce tão baixo que entra na camada atmosférica da pior comédia francesa (para mim, o péssimo título em português – Parece que estou a + – explica-se talvez por querer aproveitar o mercado para essas comédias em Portugal). Tudo é parodiado, sem verdadeira sátira (nem tacto, em alguns casos): pós-colonialismo, identidade de género, obsessão com a imagem, os média, a “cancel culture”, enfim. Por breves momentos, quando conhecemos a colega de trabalho de Bouchard no arquivo, uma jovem atraente e mordaz, temi que Arcand se fosse aventurar a ridicularizar também as relações de poder profissional e o assédio sexual, mas felizmente não aconteceu.
Existe um último momento em que o filme regressa à tona. É quando todo o circo é interrompido para podermos reparar no palhaço triste a um canto. Dois pintores são contratados para cobrir o polémico mural com tinta branca, e demoramo-nos nesse momento, e na dificuldade com que o fazem, sabendo que estão a apagar a história. É uma cena bem concebida, bem filmada, e que nos dá o espaço necessário para pensarmos no que estamos a ver. Pena que logo a seguir tenhamos de voltar aos velhinhos do lar a jogar os videojogos que vieram substituir os livros na biblioteca. E o circo retoma.
Apesar das suas falhas, eu não descartaria Testament completamente. E diria mesmo que é especialmente importante para ativistas e para quem luta por mudar perspetivas que ponham os olhos em filmes deste tipo, e na resposta do público. Na sala onde estive muitos se riram com os gags sobre pronomes, o politicamente correcto, o activismo. Sei que os meus pais, se lá estivessem, também se teriam rido muito. Não são más pessoas, nem tampouco pretendem ser obstáculos à mudança social e cultural. Mas se não se sentem convidados para a festa, querem ao menos poder olhar de fora, rir e apontar o dedo às suas idiossincrasias.
Far-nos-ia melhor conseguir falar uns com os outros sobre o passado, e o futuro. Tendo em mente que ninguém escolheu o papel que lhe foi atribuído, bem como o privilégio e/ou o estigma que vem com ele. Só podemos esperar que os outros se saibam colocar no nosso lugar se soubermos fazer o mesmo para com eles. E eu continuo a esperar por um filme que consiga juntar os vários fios e fazer um nó forte, arriscando-se a ser cancelado pelos dois lados ao mesmo tempo.