Dias Perfeitos (2023)
No rescaldo da pandemia, o realizador Wim Wenders foi convidado por Koji Yanai – relações-públicas da empresa Uniqlo – para ir a Tóquio visitar um projecto pessoal do empresário: o Tokyo Toilet Project. Este projecto consiste numa rede de WC públicos, espalhados pela zona de Shibuya, desenhados por vários criadores. Há que admirar o talento de um artista como Wenders, que conseguiu transformar esta premissa num filme belíssimo nomeado ao Óscar de Melhor Filme Internacional. E a visão de Koji Yanai (também produtor do filme), que concedeu ao seu projecto uma espécie de marketing de autor semelhante à Barbie (2023), de Greta Gerwig.
Wenders, ao longo da sua filmografia, sempre teve um pé na ficção e outro no documentário (e, por várias vezes, os dois misturam-se). É também um cineasta do mundo. Já filmou na Alemanha, Itália, Estados Unidos, Portugal, Cuba… Os seus filmes tendem a procurar o lado humano das cidades em que se passam. Em Dias Perfeitos (2023), juntamente com o co-argumentista Takuma Takasaki, Wenders pinta um retrato da epidemia de solidão no Japão – uma das suas muitas faces. O protagonista de Dias Perfeitos é Hirayama (uma tremenda interpretação de Kōji Yakusho), um funcionário de limpeza das casas de banho públicas do Tokyo Toilet Project. Hirayama leva o seu trabalho a sério, e fá-lo com brio. A sua vida é de uma simplicidade desarmante: é despertado pelo varredor de rua, de madrugada e, depois de cumprimentar o céu ao sair de casa, mete-se na sua carrinha e vai trabalhar, ao som das suas cassetes; almoça num banco de jardim e tira fotografias à copa das árvores, com a sua máquina analógica; ao final da tarde frequenta os banhos públicos e janta no sítio de sempre; após cuidar das suas plantas lê até adormecer. No dia seguinte repete tudo, com um sorriso de quem encara cada dia como algo novo e belo.
O filme que Dias Perfeitos mais faz lembrar, à partida, é o Paterson (2016) de Jim Jarmusch. Também aqui o dia-a-dia do protagonista, neste caso um condutor de autocarro, é o pano de fundo para a poesia que emerge das pequenas coisas. A vida a acontecer nos intervalos da rotina.
Hirayama é uma espécie de monge urbano. Na grande Tóquio, ele vive uma vida regrada e à parte dos outros. No seu trabalho repetitivo encontra a meditação, os seus textos sagrados são os livros de Faulkner, Highsmith e Aya Koda, os seus hinos estão nas cassetes que ouve a caminho do trabalho (Lou Reed, Patti Smith, Nina Simone), e o seu serviço religioso é prestado às árvores, suas amigas. Além de as fotografar, Hirayama pede-lhes permissão para trazer pequenos rebentos para casa, onde os planta e cuida.
Tenho visto comentários ao filme que se focam na “beleza das coisas simples” com que Hirayama vê o mundo. Que celebram a sua felicidade minimalista. Acho que estão a ver apenas metade do filme. E não estou a falar dos que censuram Wenders pela romantização da “escravatura proletária” que apresenta no ecrã. É uma forma de ver o filme, e é válida, mas não é o filme que vi. Acho que empatizar com este funcionário precário e ser cúmplice da estrutura capitalista em que se move são duas coisas diferentes.
Mas empatizar com Hirayama não significa vê-lo apenas como aquilo que o próprio se mostra. É ingénuo pensar que este homem vive uma vida sem desejos e arrependimentos. Que alcançou uma paz interior absoluta. Pequenos momentos espalhados pelo filme dizem-nos que há outras camadas de Hirayama que não vemos. Como quando olhamos para uma árvore, e a vemos apenas como é neste momento, o seu tronco mais recente. Mas por detrás desse tronco que vemos estão todas as árvores que já foram, e que apesar de não vermos continuam a existir nos círculos concêntricos que revelam a sua idade. Um homem é como uma árvore, nesse sentido. Por mais que nos tentemos esconder por detrás da nossa casca nova, continuamos a carregar cá dentro todas as versões de quem já fomos.
Se um homem pode ser uma árvore, mais difícil é poder ser uma ilha. Hirayama vive sem relações próximas com outras pessoas. Quando está com elas, mal lhes dirige palavra, e mantém o olhar baixo. Por mais que possamos escolher acreditar que este homem possa ser feliz sem essas relações, não é isso que vemos. Há algo que cresce em Hirayama, como os rebentos que ele cultiva no seu quarto escuro, longe do olhar de todos, e que nunca verá tornarem-se árvores no seu tempo de vida. É ingénuo pensar que um ser humano, construído e programado para se relacionar com os outros – um ser social – possa abdicar facilmente dessa necessidade na sua vida. Essa busca pelo outro faz-se ouvir, sente-se nos olhares que Hirayama lança aos outros solitários como ele: à rapariga triste que almoça no banco de jardim perto dele; ao sem-abrigo já tomado pela loucura que dança nas ruas de Tóquio. Hirayama vai enviando estes sinais discretos aos outros. Como no jogo do galo que inicia, por correspondência, com um utilizador de uma das casas de banho públicas. Funciona como uma “message in a bottle” para este(s) náufrago(s).
Hirayama é também traído pelos seus sonhos ou, antes dizendo, por Wenders, que nos mostra a nós, espectadores, com o que sonha Hirayama. Nestas sequências impressionistas, Hirayama não nos consegue esconder o quanto um toque de outro ser humano significa para ele. Está lá, literalmente, preto no branco. Seja o pegar uma criança pela mão, ou um beijo inesperado na face.
Wenders levanta um pouco do véu das vidas passadas de Hirayama. Apenas o suficiente para espreitarmos, para arranhar a casca da árvore e vislumbrarmos o seu interior. Existe uma sobrinha, com quem Hirayama sente algum desconforto em lidar (talvez por ver nela a mesma semente da solidão). Existe uma irmã, e um pai. Existe um passado que soa a trauma. Ao ponto de o reaparecimento destes elementos serem o suficiente para desequilibrar a vida contente de Hirayama. É a única vez que o vemos ceder ao álcool e ao tabaco. Não podemos escapar ao passado, porque o carregamos dentro de nós, como as árvores.
Os Dias Perfeitos do título são referência à canção de Lou Reed, onde este canta:
Just a perfect day
You made me forget myself
I thought I was someone else
Someone good
Há a sensação de que Hirayama se perde na rotina*, e na dedicação ao trabalho e às suas plantas, livros, fotografias, como forma de “fugir para a frente”, de esquecer o passado e viver um dia de cada vez. E consegue-o, até certo ponto. Podemos dizer que renasce um pouco a cada nova manhã, e consegue viver momentos de beleza subtil, e melancólica, que o sustentam e lhe trazem autêntica felicidade. Mas é quando confunde a fachada com o edifício todo que essa construção ameaça ruir.
Na última e poderosa cena do filme, ao som de Feeling Good de Nina Simone, Hirayama conduz em direção ao nascer do Sol, e o seu rosto contorce-se entre expressões de alegria e tristeza. Quando nos vemos por inteiro, com todas as nossas contradições, a única reação é mesmo rir e chorar ao mesmo tempo.
* Nem todos podem recorrer à heroína, Lou.