Iron Claw (2023)

Na banda desenhada, a história do Incrível Hulk não começa quando o cientista Bruce Banner se vê apanhado na explosão da bomba de radiação gamma que ele próprio criou. É preciso voltar décadas atrás, ao seio familiar. Antes de se tornar de carne e osso, o Incrível Hulk já existia como uma fantasia infantil de Bruce; uma personagem criada para lidar com os repetidos maus-tratos sofridos pela mão do seu pai, Brian Banner. O Incrível Hulk é um corpo absurdamente grande e blindado, comandado pela lógica de uma criança. É um mecanismo de defesa face ao trauma que ameaçava a existência de Bruce. O Incrível Hulk quer duas coisas: que o deixem em paz ou, se isso não lhe for permitido, provar que é o mais forte de todos. O Incrível Hulk não precisa de ninguém. 

Talvez Jack Adkisson tivesse sido feliz se lhe tivessem permitido jogar futebol americano, como desejava. Vendo essa oportunidade ser-lhe roubada, Jack virou-se para outro desporto, o wrestling profissional. O wrestling permitia-lhe não só provar ao mundo que era o mais forte, como lhe permitia fazê-lo largando a pele do pobre Jack Adkisson – cilindrado pela vida – e assumindo em vez disso uma personagem, que Jack baptizou de Fritz Von Erich. Apesar de uma carreira notável no circuito da National Wrestling Alliance (NWA) e da World Class Championship Wrestling (WCCW), Fritz nunca conseguiu conquistar o título maior desta competição, e por isso passou o nome Von Erich, e a sua obsessão, aos filhos. Essa pesada herança é o ponto de partida para The Iron Claw (2023), de Sean Durkin

Os filhos de Fritz (Holt McCallany) e Doris (Maura Tierney) não são tanto educados, mas sim treinados. Treinados para serem os mais fortes. Treinados para não dependerem de ninguém e resolverem os problemas sozinhos. Treinados para honrar o pai e temer a Deus. Quando os conhecemos, em adultos, já desenvolveram os corpos musculados que os protegerão no ringue e na vida. Kevin (Zac Efron), o mais velho, mantém o nome Von Erich vivo nas competições de wrestling, juntando-se-lhe David (Harris Dickinson) e, mais tarde, Kerry (Jeremy Allen White) e Mike (Stanley Simons). 

Ao início, tudo é como uma brincadeira de crianças. O carinho que não recebem de Fritz e Doris é compensado com amor fraterno. Para Kevin, estar no ringue com os irmãos é a melhor coisa do mundo. Vivem personagens coloridas, posicionadas de forma clara em alianças e rivalidades com outros wrestlers. Têm objectivos bem definidos, ainda que sejam fruto da ambição do seu pai, que desvaloriza qualquer interesse demonstrado pelos filhos que não se encaixe na sua mentalidade de vencedor. Mesmo as suas personagens no ringue são pouco desenvolvidas, extensões da personagem que foi a do seu pai, usando o mesmo apelido e a mesma assinatura (a “garra de ferro” do título). Não há lugar à expressão individual na “garra de ferro” em que Fritz imobiliza todo o clã Von Erich. Cada filho é como um dos seus dedos – permutável e sob o seu controlo. 

A família Von Erich caminha para uma tragédia de tons quase mitológicos, que para quem está de fora se tornará parte da história destas personagens no mundo do wrestling, esquecendo-se de que por trás da fábula estão pessoas reais. Kevin sabe o que é perder um irmão: o filho mais velho, Jack Jr., morreu em criança, vítima de um acidente. Fala-se de uma “maldição dos Von Erich”, que se abateu sobre o clã a partir do momento em que o pai adoptou esse nome artístico*. Verdade ou não, antes de correrem os créditos finais de The Iron Claw, Kevin será filho único. Verá, um a um, os seus irmãos sucumbirem face às exigências do pai (e à indiferença da mãe), como um Saturno que vai devorando os próprios filhos. 

Treinados para o ringue, os rapazes Von Erich estavam completamente impreparados para lidar com a vida. Foram ensinados a não depender nem sequer dos seus pais, a não demonstrar tristeza, a responder aos obstáculos com mais treino, mais determinação. David morrerá, sozinho, num quarto de hotel no Japão, vítima de uma enterite cujos sintomas vinha a esconder há algum tempo. Kerry e Mike viriam a suicidar-se, incapazes de continuar a viver com as lesões físicas e cerebrais que sofreram porque o pai os empurrou para combater. Fora de The Iron Claw, um outro irmão – Chris – viria igualmente a escolher essa via. 

Enquanto vê os irmãos serem ceifados o olhar de Kevin vai recuando mais e mais, e é neste olhar (e não no corpo esculpido) que está o trabalho de actor de Efron. O mesmo olhar que ao início perscruta o pai em busca de uma migalha de reconhecimento, julga-o mais tarde pelos seus pecados. Pela maldição que impôs aos seus filhos, e que Kevin vive em pavor de transmitir a outra geração, temendo que a sua própria presença possa ser prejudicial para a mulher Pam (Lily James) e os filhos de ambos. 

Como um Incrível Hulk, Kevin manteve uma pureza infantil enquanto fez do seu corpo uma armadura que aguentasse qualquer embate. Mas esse corpo de nada serviu contra a tristeza de perder os seus irmãos, e se buscasse consolo nos pais, não o encontraria. Como um Bruce Banner, acreditou durante muito tempo que a sombra do pai vivia dentro dele, e seria por isso inescapável. Só ajudado pelo amor da mulher e filhos, conseguirá libertar-se da “garra de ferro” do pai. A maldição é quebrada quando Kevin pode, finalmente, chorar pelos irmãos que perdeu, e ser consolado pela família que construiu. 

Enquanto filme, The Iron Claw peca por ter demasiado caminho para percorrer, na tentativa de encaixar um drama que se estende por vários anos em duas horas e meia. Sobra, por isso, pouco tempo para conhecermos melhor as personagens, especialmente os vários irmãos Von Erich, antes que se retirem de cena. A pressa em seguir em frente com a narrativa rouba também a espectador a oportunidade de pesar a morte de um irmão, antes que a próxima fatalidade venha exigir a nossa atenção. E, além disso, joga contra uma dimensão de tragédia grega que poderia ser mais explorada. 

Como nota final, é inegável que The Iron Claw, pelos seus protagonistas, o meio onde se passa, e os seus temas, seja um filme centrado na masculinidade. Mas, por isso mesmo, vale a pena sublinhar uma das cenas mais afectantes, e que se afasta desse lado mais masculino. É uma cena simples, mas desarmante. E injecta uma profundidade muito necessária à personagem da mãe, Doris, que até aí surgia quase como uma não-entidade. Ocorre quando Doris, sozinha no seu quarto, se prepara para o funeral do seu filho Mike. Os seus olhos fixam-se, cheios de mágoa, no vestido preto de luto estendido na cama. Neste ponto do filme, Doris vai enterrar o seu terceiro filho, e a ideia de tornar a usar o mesmo vestido preto é-lhe insuportável. Também ela acabará por se libertar da “garra de ferro” de Fritz, e voltará a pintar. 















* O filme de Durkin não explora esta parte da história, mas a escolha do nome Von Erich está relacionada com a personagem que Fritz interpretava como wrestler: um vilão nazi. É comum, tal como em quase toda a cultura popular, as narrativas do wrestling espelharem medos e eventos do mundo real.

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