Os Excluídos (2023)

Muita gente tem, provavelmente, a sua própria ideia daquilo que constitui um filme “clássico” de Natal. Número um: a acção tem de se passar na quadra. Este parece-me ser o único ponto de concórdia. Para alguns, será mesmo esse o critério necessário e suficiente para classificar um filme como “de Natal” – Assalto ao Arranha-Céus (1988), Batman Regressa (1992), De Olhos Bem Fechados (1999). Haverá quem argumente que tem de existir uma ligação emocional, nostálgica, com o filme. Isso complica um pouco as coisas, porque varia de país para país – nós, em Portugal, partilhamos o favoritismo pelo Sozinho em Casa (1990) com os Estados Unidos, mas no que toca à popularidade de Música no Coração (1965) alinhamo-nos mais com a Áustria, por exemplo. Finalmente, para os mais puristas, um filme “de Natal” só o é se o significado da quadra estiver intimamente ligado à sua mensagem e temas. 

A estreia d’Os Excluídos (2023), de Alexandre Payne, tem sido celebrada como o surgimento de um novo clássico de Natal. O filme passa-se durante o Natal e o Ano Novo, por isso cumpre o requisito mínimo. É cedo para dizer se criará uma ligação emocional no nosso país (ou em que país for, na verdade). E quanto à mensagem? 

O díptico Natal-Ano Novo é um “one-two punch” de perdão pelos erros passados, e começar de novo. No Natal reatamos laços, esquecemos quezílias, e desculpamos os outros como esperamos ser também desculpados por eles. Pecados expiados, no Ano Novo tentamos enfrentar o futuro de cara lavada, procurando ser a melhor versão de nós mesmos. É mais fácil dito do que feito, e poderíamos discorrer sobre a pressão negativa que este tipo de pensamento mágico nos coloca em cima. Mas, dito isso, claro que gostamos de ver filmes de Natal onde os protagonistas conseguem essa mudança a que aspiramos. Mesmo que raramente possamos observar os efeitos a longo-prazo das suas decisões. 

Na Academia Barton, um colégio interno em Nova Inglaterra, o semestre acaba, e estudantes e professores regressam a casa para passar o Natal em família, ou com amigos, e assim cumprir o ritual que lhes permitirá renovarem-se e enfrentarem mais um ano. Mas, nem todos na Academia têm direito a férias. Os “Holdovers” (título original, que se poderia traduzir literalmente como “restos” ou “retidos”) são: o professor de Estudos Clássicos Paul Hunham (Paul Giamatti), o aluno Angus Tully (Dominic Sessa), e a chefe da cantina Mary Lamb (Da’Vine Joy Randolph). As razões que os prendem à Academia na quadra natalícia são diferentes: Angus é abandonado pela mãe, que não o quer a atrapalhar a lua-de-mel com o novo companheiro; ao professor Hunham calha a fava de ficar a vigiar os alunos que têm que passar as férias na Academia (além de que não é como se ele tivesse algo melhor para fazer); e Mary Lamb não se sente à vontade para ir ter com a família depois de ter perdido o seu filho – um aluno de Barton – na Guerra do Vietname. 

Neste caso, o título em português, apesar de não captar exactamente o significado do original, não é infeliz. Estas três personagens vêem-se excluídos da sua relação com os outros, também por diferentes motivos. Paul Giamatti é especialista em interpretar personagens que seguem a máxima do suricate Timon d’O Rei Leão (1994): “quando o mundo te vira as costas, tu viras as tuas costas ao mundo”. O ressentimento pelas injustiças que sofreu no passado enclausurou o professor Hunham numa carapaça de solidão asceta, que se manifesta também no desdém e sarcasmo com que trata os seus alunos privilegiados (que o detestam). Já Angus sofre pelas semelhanças com o seu pai, e as memórias que invoca na mãe são dolorosas ao ponto de esta o querer manter fora de vista. Mary Lamb foi tocada pela morte, e o seu luto é como algo que se agarra à pele e causa desconforto nos outros (é uma pena que a sua personagem seja a menos desenvolvida dos três). Cada um deles carrega um estigma que os mantém afastados da sociedade. Dessa forma, são Os Excluídos. O milagre de Natal do filme de Payne será ver cada uma destas personagens lutar para sair do buraco em que a vida os meteu, com a ajuda uns dos outros. No final, talvez consigam, também eles, a sua oportunidade de renovação, de um novo começo, de fazer diferente.

Os Excluídos é um filme de Natal “à antiga”. Tão à antiga, na verdade, que não só se passa no início dos anos setenta, como é filmado e distribuído de modo a reproduzir, na perfeição, um objecto dessa época. A atenção ao detalhe é de um fetichismo que atinge níveis tarantinescos. Não falo apenas do tratamento de imagem do director de fotografia Eigil Byrd, ou da música composta por Mark Orton (entre outros clássicos da época). Alexander Payne deu-se ao trabalho de recuperar o logótipo antigo dos estúdios Universal e – como os estúdios Focus Features e Miramax não existiam ainda na altura – imaginar logótipos para estes estúdios consistentes com a estética dos anos setenta. O designer gráfico Nate Carlson fez tão bom trabalho que a Miramax o contratou para desenhar o novo logótipo do estúdio. 

Este tipo de brincadeira pode facilmente resvalar para puro exercício nostálgico, o estilo sobrepondo-se a tudo o resto. Uma pessoa também pode admirar o produto final, mas perguntar-se “porquê?”. Será que era mesmo preciso tanta preocupação em tentar reproduzir estes filmes antigos? Acho que a melhor resposta é a mais simples. Não, não era preciso. Mas porque não? Tanto Tarantino como Payne têm um imaginário cinematográfico que vem dos filmes que viram em crianças e jovens adultos. São as suas referências, e provavelmente está na forma como visualizam as suas histórias. Felizmente, ambos têm inteligência e talento suficientes para não deixar a coisa descontrolar-se. Nunca vemos um filme de Tarantino apenas como um pastiche dos westerns ou exploitations favoritos do realizador. A reprodução da época faz parte do factor entretenimento, mas não chega nunca a distrair da narrativa. O mesmo com Payne*. Lá por nos estar a servir uma receita de bacalhau com natas tirada do Cozinheira Ideal e servida numa travessa vintage da SPAL, não quer dizer que não terminemos a refeição cheios e nutridos. 

Alexander Payne teve a ideia de fazer Os Excluídos depois de ver o filme de Marcel Pagnol, Merlusse (1935), cuja sinopse é, em linhas gerais, a mesma. Foi o argumentista David Hemingson quem depois desenvolveu a narrativa em torno das suas próprias experiências de vida, e do tempo que passou num colégio interno. Mas as referências de Payne neste filme vêm principalmente dos filmes de Hal AshbyHarold e Maude (1971) e O Último Dever (1973). Também aqui temos a empatia entre outsiders face à sociedade e a sistemas hierárquicos. Mas os filmes de Payne não são tão mordazes na sua crítica social como os de Ashby

Como nota final, é de notar que os melhores filmes de Alexander Payne são road-moviesAs Confissões de Schmidt (2002), Sideways (2004), Nebraska (2013). Não deixa de ser engraçado como, apesar de nada indicar à partida que Os Excluídos se inclua nesse género, ao fim de uma hora de filme parece que Payne não aguenta mais e tem de pôr as personagens num carro a viajar para qualquer lado. É mais forte do que ele. 

Cá estaremos, no ano que vem, e nos seguintes, para saber se Os Excluídos ganha ou não o seu lugar à mesa no Natal. 










* O músico Josh Rouse fez algo parecido com o seu álbum 1972 (2003), que não só homenageia o tipo de música feita nesse ano, como foi gravado totalmente com instrumentos e equipamento da época. Curiosamente tanto Rouse como Payne são naturais do Nebraska. Qual será a pancada que a malta do Nebraska tem com os anos setenta?

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