O Hotel Palace (2023)

Quando lerem o nome de Roman Polanski neste texto, o mais provável é fazerem uma de três associações: 1) ao seu trabalho como realizador, sendo responsável por alguns dos filmes mais icónicos do cinema americano – A Semente do Diabo (1968), Chinatown (1974); 2) ao mediático homicídio da sua esposa grávida, Sharon Tate, pela família Manson – recentemente parodiado no Era Uma Vez em Hollywood (2019), de Tarantino; 3) à acusação e condenação por sexo com uma menor e o exílio dos Estados Unidos que, ainda hoje, lhe confere o estatuto de fugitivo à justiça. 

Difícil é descortinar qual destas associações vos veio à cabeça primeiro. Talvez não seja apenas uma, e consigam manter no pensamento várias perspetivas da mesma pessoa, sem a reduzirem a um único aspeto – bom ou mau – na sua biografia. Parabéns. Não é para todos. 

De fora da conversa ficam, geralmente, outros factos da vida de Polanski, agora com 90 anos. A infância passada no gueto de Cracóvia, após a invasão da Polónia pelos nazis. Como, aos seis anos de idade, viu um oficial alemão matar a sangue-frio uma mulher na rua. Como se separou da mãe e do pai durante a liquidação do gueto onde vivia (a mãe, grávida de 4 meses, seria levada para Auschwitz, de onde não sairia). E como sobreviveu, vagueando pela Polónia com apenas 10 anos de idade, vivendo como Oliver Twist (2005), que mais tarde viria a filmar. Já antes disso, O Pianista (2002) ia buscar às suas próprias experiências – e da sua família – como judeus perseguidos no seu país natal. Como escape, Polanski virou-se para o cinema, consumindo, desde jovem, filmes de forma obsessiva. 

Apesar de eu acreditar que um indivíduo tem sempre um contexto por detrás, que nos permite entendê-lo melhor – e que esse contexto pode ser alargado quanto mais recuamos na sua biografia – não quero dar a entender que estou aqui para fazer uma defesa ou uma apologia de Polanski. Não sei se ele cometeu os crimes de que é acusado, incluindo aquele pelo qual se declarou culpado a um juiz. O relato dos seus problemas com a justiça americana, e as circunstâncias que levaram à sua fuga podem ser encontrados online, ou em documentários como o Procurado e Desejado (2008), de Marina Zenovich. E cada um pode tirar as suas próprias conclusões, fazer o seu próprio julgamento. Ao dar o contexto que apresentei nos primeiros parágrafos não estou também de modo nenhum a sugerir que uma infância difícil justifica as ações criminosas de um homem adulto para com outra pessoa. 

Mas uma obra acaba por ser sempre um reflexo do seu criador. E, para melhor procurar entender de onde a obra surge, eu preciso dar-lhe o contexto do percurso de vida do artista. No caso de Polanski, as acusações de violação são inescapáveis nesse exercício (tal como o são no caso de Woody Allen). Mas não podem ser um farol encandeante que não permita ver além disso, ignorando a complexidade do indivíduo. E muito menos devem ser motivo para cancelar a sua obra. Até porque isso é um esforço fútil. Quer queiramos quer não, a influência cultural destas “personalidades problemáticas” difundiu-se e aparece um pouco por toda a parte. As suas obras irão sobreviver-lhes, e às suas vítimas. Não há razão para atirarmos fora o bebé juntamente com a água do banho. Rejeitar a obra mesmo que o artista tenha cometido um acto horrível? Se levarmos isso ao absurdo, vamos destruir os quadros de Caravaggio porque ele cometeu um homicídio? 

Vão-me dizer que Polanski não é nenhum Caravaggio, e se for preciso podem invocar o seu mais recente filme (talvez o seu último filme), O Palácio (2023), como prova. Li uma crítica negativa que dizia algo como “já nem sequer podemos defender Polanski pelo seu génio”. Esta também é uma linha de raciocínio perigosa. Mesmo se o realizador só produzisse obras-primas, os seus actos criminosos não seriam menos graves. Eu não considero que estou a perdoar Polanski quando aprecio um filme seu. Sei que o artista e a pessoa não são entidades separadas, mas consigo aceitar que um homem não se reduz a uma única coisa – seja essa coisa uma obra-prima artística, ou um acto repugnante. 

Desde a sua fuga dos Estados Unidos, Polanski conseguiu continuar a trabalhar e a realizar, filmando em França, na Polónia ou até em Sintra (A Nona Porta, 1999). Vários destes filmes foram aclamados pela crítica, tiveram sucesso comercial, e ganharam prémios em festivais. Se não era amado ou desejado, Polanski era pelo menos tolerado. A sua vítima, Samantha Geimer, tornou claro em várias intervenções públicas que não deseja que Polanski continue a ser castigado, e que as ações do juiz e dos media na altura da condenação a prejudicaram muito mais do que o crime do realizador. 

As coisas mudaram em 2017. As alegações contra Harvey Weinstein deram origem ao movimento metoo, e Polanski tornou-se novamente um alvo fácil. Em 2018, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas votou a sua expulsão*. No ano seguinte, o seu filme J’accuse – O Oficial e o Espião (2019) venceu o Grande Prémio do Júri no Festival de Veneza e mais tarde o César de melhor realização. Essa cerimónia dos Césares foi marcada por protestos contra a nomeação de Polanski, incluindo o boicote de várias personalidades. O filme foi bem recebido, mas ao contrário de filmes anteriores do realizador, J’accuse – que dramatiza a injusta acusação e condenação por espionagem feita ao oficial judeu Alfred Dreyfus – tem claramente a intenção de espelhar a situação de Polanski, como ele a vê. Aliás, como se não fosse suficientemente claro no filme, o próprio não se coibiu de o reforçar em entrevistas. J’accuse é um bom filme, mas o primeiro em que se nota a amargura de Polanski a vir ao de cima. 

O realizador teve muito mais dificuldade em conseguir produzir O Palácio. Novas acusações de agressão sexual surgiram, e a opinião pública em França fez com que lhe fosse impossível conseguir financiamento nesse país. A sua reputação fez com que vários actores e actrizes se recusassem a aceitar papéis num filme seu. Aqueles que participam em O Palácio fazem-no por amizade (Fanny Ardant, John Cleese), pela oportunidade de trabalhar com um mestre (Joaquim de Almeida, Oliver Masucci), ou porque eles próprios caíram em desgraça em Hollywood (Mickey Rourke). E toda a produção teve lugar no Gstaad Palace, na Suíça, na cidade onde Polanski actualmente reside. Sem procurar ser insensível na comparação, mas é difícil não ver este filme como resultado da guetificação da carreira de Polanski

Há pouco mais a dizer sobre o filme em si. Foi co-escrito com Jerzy Skolimowski, uma parceria que remete para a primeira longa-metragem de Polanski, A Faca na Água (1962). O Palácio apresenta-se como uma comédia negra mas, apesar de o humor negro funcionar em momentos na filmografia de Polanski, acho que o realizador nunca se deu bem em comédias explícitas (os meus pais, que adoram a sua paródia de vampiros Por Favor Não Me Morda o Pescoço, 1967, irão discordar). Em O Palácio, seguimos o concierge interpretado por Oliver Masucci durante os preparativos para as celebrações do milénio no seu exclusivo hotel. O filme faz-se de situações caricatas com a exclusiva e exigente clientela, incluindo ex-pornstars (Luca Barbareschi), mafiosos russos (Alexander Petrov, Ilia Volok), um cirurgião plástico e a sua esposa com Alzheimer (Joaquim de Almeida e Luisiana Kornuta Steffen), entre outros. Pelo meio, há referências a Vladimir Putin, Bernie Madoff, e o bug do milénio, claro. 

Dizer que é um filme menor de Polanski é pouco para o desconforto que O Palácio causa no espectador. O que transparece não é comédia de todo. É a profunda amargura do seu realizador. E como essa amargura parece ter atingido, por fim, a própria paixão de Polanski pelo cinema, pela arte que lhe salvou e moldou a vida. E isso é triste de ver, independentemente de quem ele é ou dos crimes que cometeu. Se a indigna cena final de O Palácio for mesmo a despedida de Polanski, é a de alguém que bate com a porta violentamente enquanto nos manda a todos à merda. Felizmente, não é isso (nem as piadas meta-referenciais que aparecem neste filme) que vai desvalorizar o seu trabalho anterior. Ninguém, nem mesmo Polanski, pode decidir isso por nós.

* No mesmo ano, convidaram a sua esposa, Emmanuelle Seigner, a juntar-se à Academia. Um convite que ela rejeitou, sublinhando a hipocrisia do mesmo.

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