Guerra Civil (2024)

Existe uma velha superstição de que a câmara fotográfica tem o poder de capturar a alma. Esta crença não tem provavelmente uma origem única. Terá aparecido junto dos nativos americanos, bem como em certas tribos africanas e das Caraíbas. Tal como a sua imagem física passava para o papel fotográfico, também a alma, as emoções desse momento, eram transferidas e roubadas ao seu dono. 

Uma câmara fotográfica tem muitas semelhanças com uma arma. Uma extremidade que se aponta a alguém, um olho que mira o alvo, um disparo. Alvejar outro ser humano tem como objectivo privá-lo de algo – geralmente da sua vida, a sua “alma”. Não falo por experiência própria, claro, mas não podemos ser os mesmos antes e depois de matar alguém a tiro. Também o atirador perde algo no processo. Algo que lhe é subtraído. 

Os fotógrafos de guerra atiram-se para o meio dos conflitos sabendo qual o papel que desempenham. Armados apenas com a sua câmara, acompanham os soldados e registam sem interferir. Colocam a lente entre si e a violência a que assistem no campo de batalha. Homens e mulheres morrem à sua frente e, contrariando os impulsos humanos de fugir, ajudar, chorar, empunham o seu aparelho e capturam os últimos momentos de vida destas pessoas. Sabem que a importância do seu trabalho nesses cenários tem outra importância. Eles devem ser os observadores isentos, devem abandonar um pouco da sua humanidade em cada momento que fotografam, para que outros possam testemunhar através das suas fotografias. 

Este tipo de exigência não tem como não mudar uma pessoa. Como uma pele que deixa de servir, a empatia recua porque deixa de ser útil à tarefa em mãos. A frieza é uma melhor companheira em cenários de guerra. 

Em Guerra Civil (2024), de Alex Garland, Kirsten Dunst interpreta Lee Smith, uma veterana fotógrafa de guerra. A angústia que Dunst consegue transmitir através do olhar pesado de Smith traduz mais do que apenas o desgaste de anos a cobrir conflitos armados. Revela também o beco sem saída existencial em que a sua personagem se encontra. Ao longo da sua carreira cobriu várias guerras, e as suas fotografias correram mundo. E, no entanto, todo o seu esforço parece fútil, pois a guerra continua a existir, homens e mulheres continuam a matar-se uns aos outros. E, no cenário distópico que Garland construiu, nem sequer conseguiu impedir que americanos matem americanos num conflito interno. 

Neste “suponhamos” que é o ponto de partida do filme de Garland, os Estados Unidos da América vivem a segunda guerra civil da sua história. Se a primeira opunha a União (“o Norte”) contra os estados secessionistas da Confederação (“o Sul”) por causa principalmente da questão da escravatura, é pouco claro em Guerra Civil o que terá dado origem ao conflito desta vez. Sabemos apenas que as “Western Forces” (WF) formadas por Texas e California combatem forças leais ao governo de Washington, encabeçado pelo Presidente (Nick Offerman), que serve um terceiro mandato. A vitória das WF parece iminente, e um grupo de repórteres quer aventurar-se até à linha da frente para tentar entrevistar e fotografar o Presidente antes que seja deposto (ou, mais provavelmente, morto). 

Nesta viagem, Lee é acompanhada pelo seu colega da Reuters Joel (Wagner Moura), o seu antigo mentor e jornalista do The New York Times Sammy (Stephen McKinley Henderson), e pela jovem aspirante a fotógrafa Jessie (Cailee Spaeny). Lee viaja, portanto, com o passado e o futuro no banco de trás. Sammy, apesar da idade e das circunstâncias, acredita ainda no poder do jornalismo do qual Lee começa a duvidar. E Jessie mostra ainda uma inocência que Lee perdeu há muito. Não ajuda o facto de Jessie olhar para Lee em busca de um modelo a seguir, enquanto Lee hesita em formar uma ligação com esta rapariga ao mesmo tempo que a vê ser transformada pelas exigências no campo de batalha. Lee sabe quais são as consequências naturais da sua profissão. A oportunidade de uma grande fotografia sobrepõe-se a tudo. Mesmo tudo. 

Tal com a sua personagem principal, o filme de Alex Garland também sofre um dilema existencial. Quando ouvi as primeiras notícias sobre este filme, fiquei intrigado pela discrepância entre o realizador/argumentista – responsável por filmes que evitam abordagens simplistas, como Ex Machina (2014), Aniquilação (2018), ou Men (2022) – e, bem… o simplismo aparente da premissa de Guerra Civil. Toda a campanha de marketing da produtora A24 em torno do filme só acrescentou à minha confusão*. O que era, afinal, suposto esperar deste filme? A embalagem parecia prometer um filme de ação a fazer lembrar os disaster movies de Roland Emmerich: imagens de monumentos americanos transformados em cenários de guerra. Mas, conhecendo o trabalho do realizador, o recheio teria que esconder algo mais desafiante, certo? Certo? 

Ambas as expectativas saem defraudadas no produto final. Um espectador que vá ao engano de acreditar que o espera um filme de espetáculo, com muita ação e efeitos especiais (a A24 "gabou-se" deste haver sido o seu filme mais caro até à data), sai desapontado. Um espectador mais atento que procure a marca da escrita de Garland também vai ter dificuldades em encontrá-la. Como já ficou claro, a história que Garland quer contar em Guerra Civil é focada no trabalho dos repórteres e fotógrafos de guerra. E isso é legítimo, claro. Fica é a grande pergunta que não nos larga nem antes, nem durante, nem depois de vermos o filme: para que é que serve o cenário fictício de uma nova guerra civil nos Estados Unidos, no contexto da narrativa? O filme é construído todo à volta de um artifício que, não só não acrescenta nada de significativo à história, como vem tirar-lhe peso e seriedade. 

Quando entramos no filme, esta guerra civil já dura há algum tempo. Garland torna claro que não tem o mínimo interesse em detalhar como começou, nem sequer em explorar as motivações de um lado ou do outro. Para um filme que apresenta um cenário no qual divisões na América levaram ao conflito armado, Guerra Civil faz um esforço constante para andar em bicos de pés e não dizer absolutamente nada que possa ter interpretação política. O que leva um Presidente a agarrar-se ao cargo e bombardear os próprios eleitores? Como é que dois estados politicamente tão diferentes se vêm aliados contra o governo estabelecido? Onde anda o resto do mundo nisto tudo? Se não nos é dada sequer hipótese de tentar compreender o que levou a esta guerra, como é suposto que possamos refletir sobre seja o que for? Na sua indiferença, o filme faz lembrar a cidadezinha por onde Lee e companhia passam a caminho de Charlottesville, onde a vida segue o seu caminho e onde todos se esforçam por ignorar o que está a acontecer à sua volta. 

Talvez seja injusto exigir demasiado a um filme que, ainda antes de começar a rodagem, já se havia tornado obsoleto. Foi em janeiro de 2022 que Alex Garland assinou com a A24 para este projeto. Um mês depois, a Rússia invadia a Ucrânia. Antes de chegar às salas, o conflito no Médio-Oriente intensificou-se, após o ataque do Hamas a 7 de Outubro, e a resposta de Israel. Cada vez que ligamos o telejornal somos confrontados com o verdadeiro horror da guerra, e poucos filmes conseguiriam ter verdadeiro impacto em circunstâncias semelhantes. Mas Garland também não sai – passe a expressão – bem na fotografia. Algumas das cenas mais cruas, mais violentas e que poderiam ter mais impacto são imediatamente esvaziadas com needle drops na banda sonora, cujo mau gosto acaba por ser mais violento para o espectador do que qualquer chacina no ecrã. 

Uma grande fotografia de guerra devia ter o poder de parar-nos o pensamento, por um momento que seja. De nos tirar as palavras da boca. Dizer tudo, ou quase tudo, com simplicidade desarmante. De transmitir algo humano, e de nos envergonhar também. O filme de Alex Garland está muito longe destas qualidades. É, na sua maioria, uma paisagem inócua, inerte, e vazia de pessoas, não fosse a interpretação de Kirsten Dunst. A história que Garland quer contar nesta guerra de brincadeira é uma história que é contada todos os dias algures no mundo, com pessoas e vítimas reais. Aqui, essa experiência é diminuída, enfiada num truque narrativo juvenil, desnecessário, e francamente constrangedor. É de uma grande ironia que alguém que conseguiu capturar o zeitgeist várias vezes no seu trabalho – a geração X em A Praia (2000), de Danny Boyle, ou a inteligência artificial, em Ex Machina – nos ofereça uma coisa tão bafienta como seu (anunciado) último filme. 












* E, recentemente, deram um autêntico tiro no pé da sua reputação, divulgando nas redes sociais posters para Guerra Civil gerados por inteligência artificial. E nem sequer tem a ver com o facto de os posters mostrarem – como outras campanhas de marketing fazem – cenas que não têm qualquer lugar no filme. Mais grave é o uso da tecnologia em vez de artistas de design gráfico. Este foi um ponto central nos protestos e greves do ano passado, iniciados pelos argumentistas, mas aos quais outros profissionais se juntaram. 

Anterior
Anterior

O Hotel Palace (2023)

Próximo
Próximo

O Mal Não Está Aqui (2023)