Challengers (2024)

Tudo me diz que eu deveria gostar mais de ténis do que realmente gosto. Não sou grande aficionado por nenhum desporto, mas – se fosse – seria provavelmente o melhor candidato. Em teoria, tem tudo para me fascinar e estimular intelectualmente. Nada de equipas ou claques. Na sua forma mais despida (e bonita), consiste apenas em dois homens ou mulheres que se desafiam mutuamente até um sair vencedor. Isso pode demorar hora e meia, ou estender-se além das 10 horas. E mais bonito ainda é que isso depende mais de quão equiparados estão os oponentes, do que se são os melhores do mundo*. 

O ténis combina estratégia com fisicalidade de tal forma que é como jogar xadrez enquanto se corre uma maratona. Ao contrário do xadrez, os jogadores de ténis têm quando muito segundos para tomar uma decisão. E para a executar precisam que o corpo consiga acompanhar o intelecto. Além disso, no ténis individual cada jogador está completamente sozinho. O público deve assistir em silêncio. O seu treinador não pode comunicar com ele, a não ser para transmitir uma ou outra palavra de encorajamento. O único outro ser humano no campo é o seu oponente. E a comunicação é feita por gestos, olhares, por vezes um grito de frustração ou de exaltação. A capacidade de filmar esta “comunicação alternativa” eficazmente – e com poderoso efeito dramático – é um dos grandes trunfos de Challengers (2024), o novo filme de Luca Guadagnino

O realizador pode até nem apreciar muito o desporto que é o foco do seu filme (em entrevistas, confessou que não consegue ver um jogo sem se aborrecer rapidamente, algo com o qual me identifico) mas, como outros antes dele, consegue descortinar o seu potencial estético, dramático e simbólico. É também profundamente literário, e ninguém que eu conheça escreveu melhor sobre ténis do que David Foster Wallace

Roubando uma expressão de Werner Herzog, o ténis “parece-me uma grande metáfora; só não sei bem de quê”. Há o isolamento, de que já falei, e há também algo de sisífico em atirar repetidamente uma bola para o outro lado do campo, esperando o seu retorno para a lançar de volta, ad eternum. Como dizia o comediante Mitch Hedberg “o que mais me deprime no ténis é que, por mais que jogue e melhore, nunca vou ser tão bom como uma parede”. Há uma futilidade, que acho que é comum a todos os desportos (e que me fascina), mas que no ténis sobressai. Uma metáfora para a vida?

Onde há vida, há sexo. E não é preciso ir muito longe, nem ser Freud, para conseguir ver o sexo que existe no ténis. Dois jogadores entregam-se a uma ação repetida, rítmica, até à exaustão. Suam. Gemem e urram com o esforço e, se o parceiro estiver ao seu nível, podem ficar horas nisto. Como se ouve em um dos diálogos de Challengers: “Ainda estamos a falar sobre ténis? Estamos sempre a falar sobre ténis.”

O eroticismo está presente em todos os filmes de Guadagnino, e geralmente associado a uma qualquer forma de transgressão. Assim é com a diferença de idades entre Ello e Oliver, em Chama-me Pelo Teu Nome (2017). O canibalismo em Ossos e Tudo (2022). A infidelidade e “incesto por procuração” em Eu Sou o Amor (2009). Em Challengers, a transgressão de Guadagnino tem uma dimensão geométrica: a sobreposição de um triângulo amoroso num jogo de pares. 

Os campeões de pares Patrick Zweig (Josh O’Connor) e Art Donaldson (Mike Faist, que eu demorei a reconhecer sem o faustoso bigode com que o vi em Pinball: The Man Who Saved The Game) cruzam-se, num torneio, com a promessa feminina Tashi Duncan (Zendaya). Uma noite passada entre os três num quarto de hotel forma a base de uma pirâmide triangular, cujo cume será um jogo entre Art e Patrick, vários anos mais tarde, com Tashi assistindo na bancada. Voltaremos a este jogo ao longo de todo o filme, entrecortado com flashbacks do percurso das personagens até àquele ponto. De cada vez que regressamos, é com nova informação sobre de que forma cada um dos rapazes se envolveu com Tashi, e como isso alterou a sua amizade. Como uma bola de ténis que, cada vez que é devolvida, nos ensina algo novo sobre o nosso adversário. 

Nos 13 anos que separam o início e o fim do filme, Tashi teve uma relação com Patrick, lesionou-se de tal forma que se viu forçada a terminar a sua carreira no ténis, e passou a treinar Art – com quem eventualmente casou, teve uma filha, e formou um “power couple” do ténis. Art afastou-se de Patrick por causa de Tashi, e com ela tornou-se um campeão, apesar de a relação parecer desprovida de afecto, e de o próprio hesitar em desistir do ténis por medo de perder o “amor” de Tashi. E Patrick? Patrick sobrevive de pequeno torneio em pequeno torneio, dormindo no carro e lutando para arranjar comida na sua ambição de subir no ranking

É num destes pequenos torneios que Art e Patrick (e Tashi) se voltam a encontrar. Desmotivado pelas derrotas que tem sofrido, Art é inscrito como wild card por Tashi num torneio do circuito de Challengers para que Art recupere vencendo adversários mais fracos. Mas, no mesmo torneio compete Patrick, e muito do que ficou por dizer entre os três acabará por ser dito (mas não por palavras) durante a final que coloca Art contra Patrick. Apesar de estar na bancada, é um confronto no qual Tashi também participa. O fim da sua carreira no ténis roubou-lhe sensações que ela só consegue agora obter através de outros. 

Challengers é um filme erótico sem sexo, expressando-o através do ténis. E Guadagnino pode achar o desporto aborrecido, mas talvez por isso mesmo filma-o com virtuosismo, mudando constantemente de posição para manter a coisa interessante. É ajudado pela banda sonora pulsante da dupla Trent Reznor e Atticus Ross, que não só preenche as cenas de jogo, em câmara lenta, como ao fim de algum tempo de filme começa a invadir também outras cenas, impondo-se aos diálogos entre personagens. 

Cada elemento do trio de Challengers descobre algo sobre si próprio naquela noite passada no quarto de hotel. Antes de o filme acabar, irão redescobrir exactamente o que foi. Como em outros filmes de Guadagnino, essa descoberta pessoal está relacionada com encontrar aquilo que nos excita. Para Art e Patrick, é algo que surge da relação um com o outro, dentro e fora do campo. Para Tashi, o prazer está em assistir, mais do que participar. E os dois rapazes dão-lhe algo para o qual ela gosta de olhar. Sexo é bom, mas uma partida de ténis dura mais tempo. 












* O jogo mais longo até à data aconteceu em 2010, entre John Isner e Nicolas Mahut, dois jogadores que duvido que alguém “por fora” do desporto consiga nomear. Durou 11 horas e 5 minutos. 

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