Folhas Caídas (2023)
De há uns anos para cá, o mundo parece ter mudado a estação, e começamos a viver no Outono dos nossos tempos. O otimismo do Verão passou, e avizinham-se as dificuldades do Inverno. Talvez tenha começado com o Brexit, a eleição de Donald Trump, e o crescimento dos movimentos de extrema-direita um pouco por toda a parte. Agravou-se com a pandemia e, logo a seguir, o início da guerra na Ucrânia. Hoje, temos além da Ucrânia o conflito em Gaza, e a perspetiva de ter novamente Trump na Casa Branca, bem como a multiplicação do Chega na nossa Assembleia da República. “Winter is coming”.
O Outono está associado a estados melancólicos, e com tanto caos e drama a cercar-nos nos nossos jornais, televisões, conversas (que rapidamente se podem transformar em discussões) com amigos e colegas, não admira que nos “viremos para dentro”. Que nos sintamos desamparados, confusos, ou simplesmente sós.
Solidão é algo que as personagens principais do novo filme de Aki Kaurismӓki, Folhas Caídas (2023), conhecem bem. Ansa (Alma Pӧysti) trabalha num supermercado em Helsínquia, e quando regressa a casa aquece no microondas a comida fora do prazo de validade que rouba do emprego, e janta sozinha ouvindo ou o noticiário, ou tristes baladas em finlandês. Holappa (Jussi Vatanen) é um operário metalúrgico que mascara um lado mais sensível com a bebida e ideias mal-amanhadas de masculinidade (“homens de barba rija não cantam”). Ambos são pessoas presas a empregos precários e sem futuro. Ambos já viram passar os melhores anos das suas vidas. Ambos vivem num país para o qual a ameaça russa é bem mais próxima do que nós podemos imaginar – aqui no nosso jardim à beira-mar plantado – e lhes é constantemente relembrada nos relatos sobre Mariupol que ouvem cada vez que ligam o rádio.
Acompanhando os respetivos amigos numa noite de karaoke, Ansa e Holappa cruzam-se e reparam um no outro. Aqui tem início uma série de encontros e desencontros, com os quais Kaurismӓki brinca com o espectador, desconstruindo alguns dos lugares-comuns dos melodramas e comédias românticas. Quando Ansa e Holappa vão juntos ao cinema, acabam a ver um filme de zombies*, mas Kaurismӓki faz questão de nos mostrar, nos posters dos filmes em exibição, que poderiam ter optado pelo Breve Encontro (1945), de David Lean. Este tipo de “left turn” acontece várias vezes, com resultados cómicos que são acentuados pelas interpretações inexpressivas do elenco.
As referências cinematográficas também se multiplicam ao longo do filme, mas a maior de todas – assumidíssima – é Chaplin. Este é o Tempos Modernos (1936) de Kaurismӓki. A industrialização e o capitalismo continuam a triturar-nos. Os velhos conhecidos imperialismo e fascismo estão a ter um “comeback”. Nós, aqui em baixo, pequeninos, continuamos a viver as nossas vidas. Perdem-se empregos e números de telefone, a própria cidade parece conspirar contra nós. Mas apesar de tudo conseguimos reencontrar-nos e caminhar juntos, em direção a um futuro incerto, mas esperançoso. O mundo moderno falhou-nos. O capitalismo falhou-nos. Esperas por mim à porta do cinema?
* Verdade que não é um filme de zombies qualquer, mas trata-se do Dead Don’t Die (2019), de Jim Jarmusch (que é amigo de Kaurismӓki). Para primeiro encontro, não é a pior escolha.