Ficção Americana (2023) / Desconhecidos (2023)

“All of us fictions”

Existem duas coisas que fazem parte, inegavelmente, do comportamento humano, e moldam a nossa forma de entender o mundo. A primeira é a nossa fixação em descobrir padrões em todo o lado, basta olhar para o céu e ver como ligamos a distribuição aleatória das estrelas em constelações que nos façam sentido: animais, homens, objectos. A segunda é a nossa tendência para contar histórias. E o cinema, sobre o qual tenho escrito nestes textos, é um grande exemplo dessa propensão. 

Tudo isto faz parte da nossa forma de ver e fazer sentido do mundo. O caos, a aleatoriedade, são inimigos da sobrevivência. Precisamos de “encarrilar” o pensamento em algo a que consigamos atribuir uma lógica, uma sequência, senão temos dificuldade em funcionar. Aquilo a que nos conseguimos agarrar mais imediatamente são as repetições que o nosso cérebro capta do mundo à nossa volta. Juntando repetições suficientes (por vezes uma basta) formamos um padrão que nos serve de guia. E padrões dão origem a histórias na nossa cabeça, sequências de causa e efeito que nos permitem projectar o futuro, de alguma forma. Claro que, se há padrões que são sólidos (se largar algo, vai cair em direção ao chão), outros são apressadamente sobrepostos na realidade no desespero de nos podermos apaziguar. Surgem assim as superstições, a religião, teorias da conspiração, enviesamentos, etc. 

As histórias não servem só para entender o universo que habitamos. Servem particularmente para nos entendermos a nós mesmos e o nosso lugar neste universo, e em relação com os outros. Como os homens primitivos inventaram os deuses para fazer frente ao medo das tempestades, dos desastres naturais que os afligiam, cada um de nós tem que inventar alguma coisa para nos ajudar a enfrentar o tumulto de desejos, traumas, ambições, e pensamentos intrusivos que nos assolam. À medida que vivemos, vamos compondo a nossa história (ou histórias), e ao mesmo tempo que a contamos aos outros contamo-la também a nós próprios, repetidamente. 

Nem sempre a história que nos contamos é saudável. Uma história repetida vezes suficiente origina uma crença. E crenças são complicadas de contrariar, mas não é impossível. Podem ser desafiadas em terapia ou, simplesmente, nas relações com outros que nos vêm de fora e oferecem a sua perspetiva, a sua história de nós. 

Claro que as relações com os outros podem também acabar por nos impor uma narrativa da nossa pessoa, que não escolhemos conscientemente. Tal como procuramos os padrões no mundo natural, é fácil puxar por narrativas pré-existentes onde possamos encaixar a nossa. Quer as busquemos nós, quer nos sejam acenadas, a oferta é muita. Em mitos, em textos religiosos, nacionalismos, subculturas (punks, góticos, etc.), em instituições como a escola, o emprego, a família*. Quando chegamos ao mundo, e enquanto formamos a nossa personalidade, descobrimos que existem moldes já fabricados prontos para nos refugiarmos. 

Em linguagem de 2024, eu sou um homem branco, europeu, cisgénero. Nunca sofri discriminação ou fui marginalizado pela cor da minha pele, pela minha orientação sexual, ou nacionalidade. Fui por outros pretextos, como a aparência física, a timidez, etc. Mas o tipo de narrativa decorrente para a qual nasci, no final dos anos 80, é muito diferente daquelas para as quais nasceram as personagens dos dois filmes sobre os quais decidi escrever hoje. 

Ficção Americana, de Cord Jefferson

Thelonius “Monk” Ellison, a personagem principal de Ficção Americana (2023), de Cord Jefferson, interpretada por Jeffrey Wright, é afro-americano, classe alta, escritor e professor universitário em Los Angeles. Adam, o protagonista de Desconhecidos (2023), de Andrew Haigh, interpretado por Andrew Scott, é um guionista para televisão, homossexual e órfão. O que estas duas personagens têm em comum é o facto de se sentirem presas a narrativas das quais se querem libertar. O serem ambos escritores é importante para esse processo. No seu ofício, têm ao seu dispor as ferramentas para olhar para uma narrativa do lado de fora, e reescrevê-la. No entanto, antes de o conseguirem fazer, irão afundar-se nela até perder o pé, tão forte é o seu poder. 

Ficção Americana passa-se no domínio da farsa. Thelonius tem dificuldade em publicar o seu novo livro – os editores dizem não ser “negro o suficiente”. Em livrarias, Thelonius encontra os seus outros romances na secção de estudos afro-americanos, uma etiqueta com a qual não se identifica. O seu interesse é em contar histórias, ponto final. Mas, por ser negro, tudo o que escreve é lido com um sublinhado racial. Editores e público falam em dar voz a autores negros, mas têm uma ideia pré-concebida daquilo que a “experiência negra” deve ser: personagens marginais, linguagem de rua, discriminação, crime. Autores como Sintara Golden (Issa Rae), que escrevem para esse público, atingem um sucesso que incomoda Thelonius. Num rasgo provocatório, compõe um romance desse género, pejado de erros de gramática, calão e clichês do género, e mostra-o ao seu editor. Está-se mesmo a ver, não é? O manuscrito é um sucesso, todos o querem publicar e até fazer dele um filme. E Thelonius vê-se cada vez mais a ter que assumir a nova personalidade do seu pseudónimo – o ex-condenado Stagg R. Leigh. 

Desconhecidos passa-se no domínio da fantasia. Fazendo jus à frase de David Foster Wallace “todas as histórias de amor são também histórias de fantasmas”, Andrew Haigh coloca Adam em comunicação, através da sua escrita, com os fantasmas dos seus pais (Claire Foy e Jamie Bell), mortos num acidente de viação quando Adam tinha 12 anos. Esta comunicação permite a Adam confronta-los com as suas falhas, expressar o seu amor por eles e – o que parece ser mais importante para esta personagem – poder revelar-se como homossexual assumido, fazê-los saber quem ele é de forma mais inteira. Este exercício de Adam coincide com uma nova relação amorosa na sua vida: o vizinho Harry (Paul Mescal) que parece ser a única outra alma a habitar o mesmo edifício nos arredores de Londres. Só que se, ao início, Adam parece acreditar que estes dois lados da sua vida estão a fortalecer-se mutuamente – lidar com o trauma dos pais ajuda-o a estabelecer uma relação com outro homem, e a relação com Harry dá-lhe coragem para lidar com o trauma dos pais – na verdade ele parece perdido em ambas. 

Desconhecidos, de Andrew Haigh

É curioso que exista, em Ficção Americana, uma personagem secundária que partilha uma narrativa muito semelhante à de Adam, em Desconhecidos. O irmão de Thelonius, Cliff (Sterling K. Brown) é um cirurgião plástico que recentemente se redescobriu como homem homossexual. O pai de ambos morreu por suicídio quando eram jovens, e Cliff sente desgosto por este nunca o ter conhecido totalmente, ter morrido sem saber ou ter tido a chance de o aceitar por quem ele é. Tanto Cliff como Adam querem aparecer ao mundo incorporando a sua homossexualidade na sua história pessoal, enquanto Thelonius parece querer remover a “experiência negra” da sua. 

A questão da família é também uma diferença importante nos dois filmes. Os dois protagonistas, Thelonius e Adam, são criaturas solitárias, que se isolam por se sentirem à margem. Mas para Thelonius a família está presente – ainda que existam tensões – reunida na casa da praia onde cresceram e na qual vêm ainda a vida acontecer a cada elemento. Já Adam habita um edifício frio, vazio e silencioso, onde nem as janelas abrem para deixar entrar um pouco do mundo. A sua família são apenas as memórias que consegue invocar, e as conversas que tem com os fantasmas dos seus pais são pura invenção sua, como os espelhos no elevador que devolvem a sua imagem mil vezes. 

Adam, em Desconhecidos, é uma personagem à procura de uma narrativa e, se não é claro que a encontre no final, pelo menos é entendido que conseguiu despir-se de outras narrativas que o agarravam, e nas quais não se sentia bem. Já Thelonius, em Ficção Americana, aceita uma derrota parcial – ou uma espécie de compromisso, se soar melhor – e continua a jogar o jogo, com uma maior consciência de que mesmo as narrativas mais limitativas são uma representação da experiência de alguém, e por isso mesmo válidas. Resta esperar pelo momento, no futuro, em que, tal como Adam explica à sua mãe, possamos olhar para trás, para hoje, e dizer “as coisas já não são assim”. Aí saberemos que progredimos. Não é que estas narrativas não continuem a fazer parte de quem somos, mas não podemos deixá-las resumir-nos. Somos ficções maiores do que qualquer sinopse pode comportar. Sempre em revisão constante. 

Comparando os dois, diria que Ficção Americana funciona melhor, naquilo que se propõe a fazer, do que Desconhecidos. A farsa funciona melhor do que a fantasia, e permite injectar algum humor que falta ao filme de Andrew Haigh. Ambos os filmes escolhem abordagens artificiais aos temas que querem retratar, mas no caso de Desconhecidos, como aliás já vi em outros filmes ingleses deste tipo, o artifício vai um pouco longe demais e começa a roubar destaque ao núcleo emocional. Como o edifício onde se passa, o filme de Haigh é demasiado hermético para que as excelentes interpretações de Andrew Scott e Paul Mescal nos cheguem na sua plenitude. Já em Ficção Americana, o cool detachment da realização de Cord Jefferson permite a Jeffrey Wright e ao resto do cast (que inclui ainda Tracee Ellis Ross, Erika Alexander e Leslie Uggams) respirar livremente. 

Mas, apesar das suas abordagens diferentes, os dois filmes chegam a uma mensagem muito semelhante. Ambos os protagonistas são instados a baixarem a guarda e deixarem os outros entrar. Cliff para Thelonius: “As pessoas querem amar-te, Monk. Devias deixá-las amar-te totalmente”. 













* Recentemente li, inclusive, um artigo sobre como temos vindo a adoptar “etiquetas” do foro psiquiátrico (depressão, ansiedade, comportamento obsessivo-compulsivo) como identidades. 

Anterior
Anterior

A Quimera (2023)

Próximo
Próximo

Challengers (2024)