A Quimera (2023)

Por um fio.

Os primeiros momentos de A Quimera, o mais recente filme da realizadora italiana Alice Rohrwacher, têm sabor a recomeço. O engenho não é propriamente novo, mas é eficaz. Arthur, o protagonista, interpretado por Josh O’Connor, regressa de comboio a Itália, após sair da prisão. Traz consigo a roupa que tem no corpo, os papéis que comprovam a pena cumprida, e o estigma que faz desaparecer o sorriso daqueles que com ele travam conversa.

O terminar de uma sentença é uma oportunidade para tentar uma nova vida. Os erros do passado ficam lá atrás, expiados. O futuro volta a surgir límpido, liso como uma tabula rasa onde se podem escrever novos caminhos.

Mas o caminho não se revela fácil para Arthur, ou é o próprio quem não facilita. O regresso a casa é um regresso à sua vida anterior – aquela que o levou à prisão. As mesmas pessoas, os mesmos lugares. Mas, acima de tudo, os mortos e os seus fantasmas. Arthur é um ladrão de túmulos. Tem um talento especial – mesmo sobrenatural – para encontrar locais de enterro do período Etrusco, intocados, e cheios de valiosos artefactos. Com a sua trupe de tombaroli localizam e invadem estes lugares sagrados para os pilhar, e vender o espólio a um traficante de arte, Spartaco (Alba Rohrwacher), para com quem Arthur tem uma dívida. Se, inicialmente, Arthur parece querer rejeitar os seus antigos parceiros e a sua actividade criminosa, depressa se vê novamente envolvido.

Não é, no entanto, só a dívida para com Spartaco que puxa Arthur para a escuridão das criptas. A sua ligação com o mundo dos mortos é outra, mais forte e mais vincada. Pouco nos é dado a conhecer de Beniamina (Yile Vianello), a ex-companheira de Arthur que aparentemente desapareceu, presumindo-se morta. Mas as poucas imagens que nos surgem desta mulher são o suficiente para a codificar de forma idealizada, aos nossos olhos. Nem todos se convencem de que Beniamina está morta, a começar pela sua mãe, Flora (magistral Isabella Rossellini), apesar dos apelos das suas outras filhas, uma espécie de coro grego que a rodeia. Flora tem um carinho especial por Arthur, e trata-o como a um filho, permitindo-lhe usar e abusar da sua hospitalidade, para desagrado das filhas. É a forma de se ligar à sua filha desaparecida, também ela a favorita precisamente por ser um fantasma.

A interpretação de Josh O’Connor carrega na perfeição a ambiguidade da sua personagem Arthur. É-nos difícil (mas suspeitamos), enquanto espectadores, se Arthur está ou não interessado em seguir em frente com a sua vida, ou se se deixa recostar nas memórias do passado para aí fantasiar com algo etéreo e inatingível (esse é, afinal, o significado da quimera do título – o sonho impossível). É melhor deixar-se transportar pela ilusão de um amor perfeito, por uma mulher que já não está presente de forma física, do que alguém de carne e osso (já lá vamos) que se possa tocar e abraçar? É por isso que Arthur insiste em viver com um pé no outro mundo, a sua ligação à vida após a morte? Há um fio vermelho que se desprende do vestido de Beniamina e que se enterra fundo no subsolo. Arthur não tem verdadeiro interesse pelos artefactos roubados e o seu valor. Existe uma razão para querer estar do lado de baixo da terra, mas não é lucro. Aquilo que procura, alumiando a escuridão dos túmulos com a sua vela, é a outra ponta do fio.

A mão de Deus de Alice Rohrwacher preocupa-se em oferecer a Arthur várias outras cordas a que se agarrar, e pelas quais se poderia içar do poço fundo em que se meteu. As filhas de Flora, desconfiadas de que Arthur se aproveita da memória de Beniamina para extorquir a mãe, propõe-lhe empregos, que Arthur rejeita. Mas o maior tesouro que é posto à frente dos olhos de Arthur é Italia, a personagem interpretada pela actriz brasileira Carol Duarte. Arthur conhece-a na casa de Flora: Italia trabalha lá como mulher-a-dias como forma de pagar as lições de canto que recebe da matriarca. As diferenças entre a ideal Beniamina e Italia não podiam ser maiores. Italia é uma mulher real, longe de ser perfeita, mas tanto mais encantadora por isso. A sua beleza física é menosprezada pelos companheiros de Arthur. As suas formas não se comparam às de uma mulher italiana. A sua forma de vestir é conservadora, o seu jeito tímido. Flora chama-lhe um caso perdido – não consegue aprender a técnica, a sua voz soa “flat”. Quando dança, é tão desajeitada. E, no entanto, Carol Duarte empresta tanto a esta personagem, em gestos e no olhar, que é difícil não nos apaixonarmos por ela.

Outra divisão que o filme faz, de forma muito clara, entre Beniamina e Italia, tem a ver com a mesma linha em que Arthur se equilibra, entre os vivos e os mortos. Beniamina é a beleza cristalizada das coisas mortas, estáticas. Mas Italia é vida. Onde quer que esteja, tem o dom de trazer vida consigo. É o que faz na casa delapidada de Flora, escondendo as suas crianças pelos cantos, sem o conhecimento da sua senhoria. É o que faz também na estação de comboios abandonada que transforma em lar e creche para si e para outras mulheres, ocupando o espaço que é “do povo” para lhe dar novo uso. Se alguém tem o poder de transformar uma ruína, como Arthur, num lugar cheio de vida novamente, é a encantadora Italia.

Mas, por mais chances que sejam dadas a Arthur para se safar, para ser feliz no mundo dos vivos, há coisas difíceis de ignorar. Por mais que Arthur e Italia se aproximem, se toquem, e se amem, o fio vermelho de Beniamina permanece uma ponta solta por atar. O filósofo Slavoj Zizek tem uma citação famosa, no seu documentário O Guia de Cinema do Depravado (2006), que é direccionada a filmes como o Vertigo (1958), de Hitchcock, ou Solaris (1972), de Tarkovsky, mas que se aplica também a A Quimera: quando diz que, para a “economia libidinal” do homem “a única mulher boa é uma mulher morta”. É muito difícil a realidade – por mais encantos que prometa – competir com a fantasia do que poderia ser. Os fantasmas jogam sempre com vantagem. E esse é o dilema de Arthur. Mesmo que ele saiba, no fundo, que algumas coisas “não são feitas para ser vistas por olhos humanos”, está preso por um fio à sua quimera.

Para terminar, existe outro significado para quimera que podemos pendurar no filme de Alice Rohrwacher. Não na mitologia etrusca, mas na grega, quimera era a criatura composta de partes de outros animais: uma cabeça de leão, uma cauda que terminava numa cobra, asas de dragão, etc. O filme de Rohrwacher não é exatamente um híbrido de géneros, mas remete-nos pontualmente para outros filmes. Já referi Vertigo e Solaris, mas poderia invocar títulos tão díspares como Roma (1972), de Fellini, Viagem a Itália (1954), de Rossellini, ou os primeiros Indiana Jones (1981, 1984, 1989), de Spielberg*. Mas, se homenagear ou citar outros filmes não é garantia de qualidade, A Quimera de Rohrwacher não tem motivos para se encolher face a esses outros filmes. É um bicho que respira, caminha, e cospe fogo por mérito próprio.

[Sala: Hyde Park Picture House]











* Isto sem falar de outras misturas que o filme arrisca – como na banda sonora – e que parecem não ligar à partida mas acabam por funcionar muito bem.

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