Culpado - Inocente - Monstro (2023)
As crianças vivem num mundo à parte do dos adultos. Ocupamos o mesmo espaço, e passamos pelas mesmas coisas, mas não as vivemos de modo igual. O comportamento dos adultos é um mistério para as crianças. Porque é que fazem as coisas que fazem? Porque nos pedem para agirmos de certo modo? Porque é que se zangam quando não o fazemos?
O enigma é recíproco. Também o comportamento das crianças é um mistério para nós, adultos. Essa é, aliás, a causa de muitas frustrações por parte de pais e professores. Não se pode esperar realmente que uma criança compreenda rápida e completamente o que um adulto faz ou exige dela. É nova neste mundo, nunca esteve no lugar do adulto, não faz ideia das regras. Mas os adultos? Já todos estivemos no lugar da criança, já todos vivemos a sua experiência. Como é possível que nos esqueçamos e tenhamos tanta dificuldade em colocar-nos no seu lugar novamente?
A infância é um lugar complicado de regressar. É uma cidade onde já moramos, cheia de sítios conhecidos que nos fazem sentir nostálgicos. Mas é também um aglomerado de monumentos à pessoa que fomos e deixamos de ser, a dada altura. Existe muito a ideia de associar a infância à pureza, com uma conotação angélica. Mas a pureza verdadeira não tem nada a ver com conceitos de moralidade. Esses são inculcados mais tarde. Uma criança pode ser pura para o bem e para o mal. Para ela, essa divisão nem sequer existe ainda. Enquanto adultos, sabemos que nunca amamos ou sentimos felicidade de forma tão eufórica como quando éramos pequenos. Passamos grande parte da nossa vida adulta – mesmo que inconscientemente – a perseguir esse ideal de arrebatamento infantil. Mas algo nos impede de regressar completamente. Há uma parede que fomos erguendo ao longo dos anos, garantindo uma separação da criança que fomos. Porquê? Talvez porque, da mesma forma que amamos de forma pura, também odiamos com igual intensidade. Desejamos a morte de pais e irmãos. E vivemos o resto da vida com uma culpa primordial por esses sentimentos.
O título em português do novo filme de Hirokazu Kore-eda - Culpado – Inocente – Monstro (2023) – reflecte três faces que podemos atribuir à infância, seja a nossa ou a de outros. Éramos inocentes, por não sabermos o que estávamos a fazer? Ou será que isso é uma desculpa que dizemos hoje, e a culpa que sentimos é prova de que agimos de forma maldosa? Seremos monstros na verdade? Teremos nós um “cérebro de porco”? E se fomos monstros quando éramos mais puros, mais autênticos… não o seremos ainda?
Se é difícil para cada um de nós regressar à infância sem preconceitos, mais difícil ainda é retrata-la na arte. Culpado – Inocente – Monstro é o primeiro filme de Kore-eda que vejo. Mas, lendo um pouco, percebo rapidamente que não é a primeira vez – longe disso – que este realizador japonês filma o mundo das crianças visto “pelo lado de dentro”. Em Ninguém Sabe (2004), baseado num caso real, os protagonistas são quatro crianças abandonadas num apartamento, forçadas a inventar a sua própria sobrevivência. Em O Meu Maior Desejo (2011), dois irmãos separados para viverem cada um com um dos pais divorciados sonham em reencontrar-se. E mesmo quando não se focam na criança em si, os filmes de Kore-eda falam das relações entre crianças e adultos, inseridas em instituições, a começar pela família – Tal Pai, Tal Filho (2013); A Nossa Irmã Mais Nova (2015); Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões (2018).
Kore-eda já foi comparado a outros grandes nomes do cinema japonês, como Mikio Naruse ou Yasujirō Ozu. A estrutura de Culpado – Inocente – Monstro , no entanto, remete mais para o clássico Rashomon (1950), de Akira Kurosawa. Os mesmos acontecimentos são retratados em três pontos de vista distintos. Todos têm início com o mesmo evento – um incêndio que consome um bar de alterne no bairro onde vivem as personagens – e cada narrativa termina um pouco depois da que veio anteriormente.
No primeiro segmento, seguimos o ponto de vista de Saori Mugino (Sakura Andō), que começa a notar estranhos comportamentos no seu filho, Minato (Sōya Kurokawa). As suspeitas de Saori recaem sobre o professor de Minato, o Sr. Hori (Eita Nagayama), e esta confronta a direcção da escola sobre possíveis maus-tratos na sala de aula. O que encontra é um bloqueio diplomático encabeçado pela passiva directora (em choque desde a morte do neto), interpretada por Yūko Tanaka. Entretanto, o comportamento de Minato agrava-se, para desespero da mãe. Se as cenas na escola fazem lembrar o recente Sala de Professores (2023), de İlker Çatak, as cenas em que Saori é confrontada com as ações inexplicáveis de Minato fazem lembrar a frustração de Ellen Burstyn no papel de mãe da possuída Regan em O Exorcista (1973), de William Friedkin. É também, acredito, a frustração que muitos pais sentem durante o despertar da adolescência nos filhos: impotentes enquanto a criança que conheciam e com quem se relacionavam torna-se irreconhecível em atitudes violentas e caóticas.
O segundo segmento do filme segue o ponto de vista do professor, Sr. Hori. Também ele nota o comportamento agressivo que Minato tem vindo a demonstrar ultimamente, especialmente para com o seu colega de turma, Yori (Hinata Hiiragi). Yori parece sofrer tanto na escola, pela mão dos colegas, como em casa, pela mão do seu pai alcoólico. Antes que Hori consiga investigar mais o assunto, é apanhado no processo iniciado pela escola face às acusações de Saori. A direção da escola pressiona-o a manter-se calado e discreto, deixando-os tratar do assunto. Hori aceita, acreditando que a defesa da reputação da instituição escola o inclui a ele, mas quando se apercebe do erro é tarde demais, e isso terá repercussões na sua vida profissional e pessoal.
Finalmente, somos colocados no ponto de vista que ate todas as pontas soltas: o do próprio Minato. Os verdadeiros motivos por trás das suas ações – tão inexplicáveis para os adultos à sua volta – são desvendados. E são de uma simplicidade desarmante. Tanto nós, espectadores, como os adultos na narrativa, somos lembrados de que – mesmo para uma criança – uma motivação pode manifestar-se numa ação em sentido contrário. A crueldade pode ser tanto maior quanto o amor que sentimos por alguém. É neste segmento que temos acesso ao “mundo interior” das crianças Minato e Yori. Mundo esse que Kore-eda filma de forma luminosa e mágica, contrastando com os segmentos anteriores, passados no “mundo adulto”.
A estrutura por segmentos é construída de forma elegante e cuidadosa, fruto do trabalho do argumentista – Yuji Sakamoto – e da atenção ao detalhe na realização de Kore-eda. Cada segmento constrói sobre as fundações deixadas pelo(s) anteriore(s), permitindo a cada personagem a hipótese de redenção aos olhos do espectador. Já o espectador é forçado a reconfigurar os seus pressupostos, a mudar de posição em relação a personagens e acontecimentos, que mudam de significado consoante o prisma pelo qual são observados. Kore-eda lembra-nos, assim, que há sempre mais do que uma verdade. Podemos ser a personagem principal das nossas próprias vidas, mas vivemos – simultaneamente – milhares de outras vidas paralelas aos olhos dos outros. É fácil esquecermos de que só nós nos vemos da forma que nos vemos. E cada outra pessoa que connosco contacta nos vê de uma forma que é só sua também.
Kore-eda havia já expressado o seu desejo de colaborar com Ryuichi Sakamoto, e a banda sonora de Culpado – Inocente – Monstro viria a ser a sua última antes de falecer, há precisamente um ano. Embora, devido a limitações física, tenha conseguido apenas contribuir com duas composições ao piano (a restante banda sonora conta com faixas retiradas de outros álbuns seus), Kore-eda afirmou que ouvia constantemente a sua música durante a rodagem e edição do filme. A sua presença faz-se, por isso, sentir na obra final, que lhe é dedicada.
Enquanto compunha, também Sakamoto admitiu que teve dificuldade em identificar o “monstro” do título. Talvez a sua confusão surgisse também de tentar atribuir uma única etiqueta, quando a verdade é que todas se aplicam, simultaneamente. Culpados, inocentes, monstros. Todos nós. Desde crianças e para sempre.