Amor em Sangue (2024)
A década de 80 é talvez a mais querida do entretenimento americano, uma fixação que se prolongou até aos dias de hoje. O passar-se nos anos 80 tornou-se um “selling point” de inúmeras séries e filmes. Um dos exemplos mais populares é Stranger Things, dos irmãos Duffer. No último ano tivemos filmes como Air (2023), de Ben Affleck, Totally Killer (2023), de Nahnatchka Khan, e mesmo o The Iron Claw (2023), de Sean Durkin. E estes são apenas alguns exemplos.
Historicamente, os anos 80 marcam o período no qual entretenimento e política se fundiram simbioticamente na paisagem americana. O entretenimento tornou-se política, quando Ronald Reagan transitou de Hollywood para a Casa Branca. E a política transformou-se em entretenimento, especialmente com intenções militarísticas. O Pentágono cooperou com fabricantes de brinquedos (“G.I. Joe”), videojogos (o clássico “Contra” da Nintendo, baseado nas milícias terroristas na Nicarágua cuja atividade era financiada pela administração Reagan), e com Hollywood (em troca de acesso ao equipamento usado em Top Gun, responsáveis do Pentágono puderam moldar o guião; Alvorada Vermelha contou mesmo com um ex-secretário de Estado de Reagan – Alexander Haig – na comissão do estúdio).
Reagan via (e queria que todos vissem) a América como um herói dos filmes de Hollywood, combatendo o mal – o comunismo soviético. Como nos filmes, toda a gente adora um bom “comeback”, e os Estados Unidos estavam de volta, baby. Durante a administração Reagan, a política tornou-se mais conservadora, o capitalismo mais agressivo, e a sociedade mais individualista. A imagem pessoal tornou-se objeto de culto. Os americanos encheram os ginásios e os cabeleireiros, procurando tornar-se a melhor versão de si mesmos. O próprio Reagan promovia o fitness, divulgando o seu programa de exercícios*. Não só os preconceitos homofóbicos em relação ao bodybuilding desapareceram (ajudados pelos filmes com Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone), como a nova ideia de masculinidade passou mesmo a ser medida pela quantidade de músculo.
Muitas vezes apelidada da “Me Decade” (a década do eu), os anos 80 conferiam, simultaneamente, maior liberdade e maior responsabilidade ao indivíduo. As campanhas de combate à droga lideradas por Nancy Reagan assentavam no slogan “Just Say No”. Ou seja, focavam-se no indivíduo e na sua (in)capacidade de resistir à tentação dos narcóticos, afastando – por outro lado – a responsabilidade do governo em ajudar aqueles que não conseguiam controlar o vício. Quem não conseguia “ser forte” era deixado para trás.
Tão excessiva, visual, e propagandística foi a década de 80 que a sua influência estética se estendeu muito para além do que seria de esperar. É normal artistas que eram jovens durante os anos 80 crescerem e deixarem transparecer no seu trabalho essas influências – e essas referências activarem a nostalgia da Geração X (aqueles que transitavam entre a infância e a adolescência por volta dessa altura). Mas isso não explica totalmente o impacto de Stranger Things ou da nova adaptação de It (2017;2019) nas gerações mais novas. Rose Glass, por exemplo, nasceu em 1990. O seu filme mais recente, Amor em Sangue (2024), é uma ode a uma década que ela não viveu de todo.
O enredo é “pulp fiction” sem vergonhas. Lou (Kristen Stewart) trabalha num ginásio, onde tem que lidar com a atitude homofóbica dos que lá treinam, e com os avanços indesejados da sua colega, Daisy (Anna Baryshnikov). A vida de Lou muda quando a culturista Jackie (Katy O’Brian) chega à cidade, de passagem a caminho de uma competição em Las Vegas. A atração entre as duas é imediata, e acabam por se envolver. O problema é que Jackie começou também a trabalhar na carreira de tiro gerida pelo pai de Lou – Lou Sr. (Ed Harris em modo Crypt Keeper) – que serve de fachada para tráfico de armas. Lou não quer ter nada a ver com o pai (nem para ajudar o FBI, que o tem investigado), mas o seu cunhado, J.J. (Dave Franco) segue-lhe as pisadas, e nas horas vagas é violento para com a irmã de Lou, Beth (Jena Malone). Os eventos que levam ao derramamento de sangue do título desencadeiam-se precisamente quando Jackie, incapaz de ver Lou sofrer mais pela situação da irmã, decide agir por conta própria para lidar com J.J.
Como o período em que se passa, Amor em Sangue é garrido, hiperestilizado, e intencionalmente exagerado. Mas, o que distingue o filme de Glass de outras incursões pela década de 80 é que não se trata de uma escolha puramente estética. Não é um filme passado nos anos 80. É um filme que tem os temas relativos a essa década bordados na própria narrativa (o guião foi escrito por Glass e Weronika Tofilska). É sobre a mentalidade dos anos 80.
Jackie dá corpo ao sonho americano daquela época – a conquista do sucesso pelo suor, motivada pela propaganda espalhada pelo ginásio, em cartazes orwellianos. É provavelmente esse idealismo que atrai tanto a pragmática Lou, com os seus dois pés bem assentes na cidadezinha de onde nunca saiu, à sombra da figura paterna. Lou recorre a outro tipo de propaganda – cassetes motivacionais – para deixar de fumar, mas não tem qualquer escrúpulo em alimentar o sonho de Jackie com esteróides na primeira noite juntas. Tudo à volta de Jackie contribui para lhe conferir uma sensação de poder maior. A princípio, nem gosta de armas, mas isso muda quando Lou Sr. a ensina a disparar. À medida que se vê mais poderosa que nunca – seja pelas drogas ou pelo amor de outra pessoa, que tem o mesmo efeito – Jackie começa a confundir poder com impunidade. E é aí que os problemas começam.
Jackie começa como alguém que quer passar a mesma imagem que Reagan queria projectar para os Estados Unidos: forte, confiante, independente. Mas, tanto num como no outro, a força prova-se insuficiente, e a confiança transforma-se em narcisismo (a cena em que Jackie treina em frente a uma televisão, imaginando que os aplausos na queda do muro de Berlim são para si é muito bem conseguida). E a independência? Bem, quando as coisas dão para o torto é Lou quem tem as ideias no sítio – e está disposta a sacrificar-se – para as resolver. Em última análise, Amor em Sangue mostra como o lado realista precisa do lado sonhador para se mover, e o sonhador precisa de alguém que o consiga trazer de volta à Terra antes que seja tarde demais. Mas de mãos dadas, trabalhando em conjunto, podem ser gigantes.
Jackie mantém-se uma sonhadora do início ao fim. O casal segue viagem, deixando para trás a década de 80, com a sua violência e corpos enterrados no deserto, e Jackie consegue dormir tranquila. E Lou? Na sua primeira cena do filme, está a limpar sanitas no ginásio onde trabalha. Na última, tem de se livrar do corpo que ainda carregam na bagageira. Tanto numa como noutra, continua a limpar a merda dos outros. E fá-lo sem acordar a companheira, porque há que proteger os sonhadores, mantendo-os ingénuos.
Apenas uma ironia final. Comecei este texto falando, entre outras coisas, do entretenimento como propaganda militar. Bem, não deixa de ser muito engraçado que, antes de o filme começar, no cinema onde estive, tenha passado um anúncio da Força Aérea Portuguesa, procurando aliciar candidatos a alistarem-se.
* Reagan servia-se desta imagem de saúde e força para contrastar também com o seu oponente – Jimmy Carter. Carter era visto como fraco tanto física como politicamente. O facto de ter tentado correr uma maratona durante a campanha de 1976 e colapsado de cansaço não ajudou à sua imagem.