A Doce Costa Leste (2023)

Do Outro Lado do Espelho

Mesmo que o nome nos escape, o trabalho de Sean Price Williams como director de fotografia é conhecido para quem tenha visto algum cinema independente americano nos últimos 15 anos. A sua impressão digital está um pouco por toda a filmografia de Alex Ross PerryQueen of Earth (2015), Golden Exits (2017), Her Smell (2018), por exemplo – mas também no cinético Good Time (2017) dos irmãos Safdie, ou em Marjorie Prime (2017), do veterano Michael Almereyda. Embora Williams admita tentar fazer algo diferente em cada filme em que trabalha, a sua marca é imediatamente reconhecível pela utilização da luz, pela composição lírica – por vezes alucinatória – das imagens, pela textura que nos faz lembrar dos filmes que víamos em VHS em casa*. Não seria exagero, creio eu, dizer que, ao fazer muito com os poucos recursos disponíveis, Williams acabou por moldar nas nossas cabeças a ideia de cinema independente americano dos dias de hoje.

Com A Doce Costa Leste (2023), Williams soma a cadeira da realização à de director de fotografia. É a sua primeira longa-metragem, após algumas curtas de ficção e documentário. E, é sabido, um realizador estreante à procura de uma história pode safar-se muito bem revisitando os clássicos. O argumento de Nick Pinkerton (crítico de cinema da Sight and Sound) que Williams filma em A Doce Costa Leste torna absolutamente claro à partida a sua progénie: o universo de Lewis Carroll e da sua Alice no País das Maravilhas.

Para ser preciso, A Doce Costa Leste é mais Alice do Outro Lado do Espelho do que no País das Maravilhas. Lillian (Talia Ryder) viaja com os seus colegas de turma até Washington, numa visita de estudo. Alheada do comportamento juvenil dos seus pares, Lillian refugia-se na casa de banho de um bar. É aqui que o filme começa realmente. Encostando a face ao espelho, Lillian canta enquanto o seu olhar no reflexo se fixa em nós, espectadores, e surgem os créditos iniciais. Como Alice, Lillian deseja conhecer o mundo do outro lado do espelho, para além daquilo que sempre conheceu e com o qual a identificaram. O seu desejo está prestes a ser concedido. A lição de história dá lugar à América real que invade o bar na forma de um vigilante armado, convencido de que ali se esconde uma rede de prostituição infantil. Lillian pode escolher entre ficar com os seus colegas, ou seguir Caleb (Earl Cave), um dos freaks que também frequenta o bar, e ver até onde a leva a “toca do coelho”.

Assim começam as aventuras de Lillian “do outro lado do espelho”. Ao longo do filme, irá conhecer vários grupos de pessoas que retratam, ainda que satiricamente, a América contemporânea. Desde o grupo anarquista de Caleb, passando por movimentos de extrema-direita e simpatizantes nazi, comunidades islâmicas, ou malta intelectual do cinema. Em cada um destes grupos, Lillian adapta-se e consegue encaixar-se, aproveitando-se do fascínio que exerce sobre um dos seus elementos. É que, apesar das suas diferenças, há algo que todos estes grupos, estas comunidades retratadas no filme, têm em comum. Se, por um lado, mostram indivíduos fechados numa narrativa circular com a qual procuram separar-se dos restantes, por outro estão desejosos de alguém – como Lillian – que os ouça e valide.

Caleb faz arte disruptiva que não divulga a ninguém, mas tem tanta necessidade de provar a sua convicção à “causa” que acaba por mostrar demasiado. E o seu grupo de “artivistas” é tão ineficaz que nem consegue dar com o local onde é suposto protestarem. Lawrence (Simon Rex), um professor universitário que Lillian conhece num comício de extrema-direita, perde-se em discursos sobre resgatar a pureza moral da América enquanto a sua relação com Lillian vai ganhando progressivamente contornos dignos da Lolita de Nabokov. A realizadora (Ayo Edebiri) e o produtor (Jeremy O. Harris) do filme no qual Lillian participa como atriz enterram o enredo em tantas camadas de significados que este se perde completamente, enquanto a vedeta Ian (Jacob Elordi) finge ser o único naquela equipa que sabe algo sobre o mundo real. E a célula religiosa islâmica onde Mo (Rish Shah) retém Lillian esconde-se nas montanhas, mas rejubila com a oportunidade de partilha com alguém de fora (“Do you like electronic music?“). Todos estes grupos, esta manta de retalhos americana, refugiam-se nas suas convicções e na mentalidade colectiva. Mas apanhe-se um dos seus elementos sozinho, e é vê-lo bater-se para conseguir ter uma ligação com alguém de fora. No fundo, todos procuram, como Lillian, algo do outro lado do espelho, alguma coisa fora da câmara de eco em que se meteram e que devolve sempre a mesma imagem. Lillian também não quer ver no seu reflexo a imagem das colegas de escola que engravidam jovens, ou da família com baixo nível de educação e pouca fome de mundo.

Lillian tampouco quer reflectir apenas a imagem que estes homens e mulheres que conhece querem ver dela. Se a sua beleza física os atrai, o ar cândido e inocente fá-los pensar que podem moldá-la, educá-la, transformá-la. Mas é Lillian quem os manipula, usando muito bem a roupa que lhe queiram vestir, mas só durante o tempo necessário para atingir os seus próprios objectivos. E esse individualismo narcísico corta a direito por toda a bullshit que lhe tentam impingir. No livro de Lewis Carroll, Alice encontra o Chapeleiro Louco e a Lebre de Março a tomar chá e, face aos tons absurdos que a conversa toma (“O que é que um corvo e uma escrivaninha têm em comum?”), a impaciente Alice decide ir-se embora, apelidando de estúpida aquela cerimónia.

Resta perguntar-nos o que fica como imagem da América que Sean Price Williams quis retratar em A Doce Costa Leste. “Go ask Alice”, o que viu ela nas suas viagens, e que análise faz das suas aventuras? Devemos rir? Chorar? Boa sorte. No máximo, ficamos com um sorriso cúmplice de Lillian para a câmara, e a promessa de que “tudo irá acontecer”.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*  Se quiserem perceber melhor do que falo, vejam o trailer de Queen of Earth, onde isso é explorado para máximo efeito.

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