A Besta (2023)

Um robô entra num bar
pede uma bebida
paga a conta
O empregado do bar diz: "Nós não servimos robots."
e o robô diz: "Oh, mas um dia vão servir-nos."


Praticamente desde que o cinema existe que andamos a fazer filmes sobre inteligência artificial. A andróide-Maria no Metropolis (1927), de Fritz Lang foi a primeira. À medida que as décadas avançavam, o número de filmes sobre – ou com elementos de – IA foi aumentando. E desde cedo que a preocupação com o aparecimento desta forma de inteligência no mundo se foi manifestando. O que não faltam são exemplos de IA que, de uma forma ou de outra, se insurgiram contra os seus criadores: o HAL 9000 no 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Kubrick; os supercomputadores Colossus e Guardian em O Cérebro de Aço (1970); as atrações no parque de diversões futurista de O Mundo do Oeste (1973), de Michael Crichton; o computador Joshua em Jogos de Guerra (1983); a Skynet da saga Extreminador Implacável (1984-2019); ou as máquinas na saga Matrix (1999-2021).

Quando não estão contra nós, estão abaixo de nós, seja como escravos – os replicantes de Blade Runner (1982); as donas de casa em Mulheres Perfeitas (1975); os robôs em WALL-E (2008) – ou como alívio cómico – R2D2 e C3PO na saga Guerra das Estrelas (1977-…); o paranoid android original Marvin em À Boleia Pela Galáxia (2005). E é difícil encontrar filmes que fujam a estas caricaturas da IA e da nossa relação com a mesma.

Em 30 de Novembro de 2022, a OpenAI lançou o seu chatbot – ChatGPT – e mudou por completo o curso (e o discurso) da Inteligência Artificial. Subitamente, abriu-se um alçapão e começaram a voar cá para fora uma série de potenciais implicações que nem o cinema – em mais de um século de história – se atreveu a explorar devidamente. Perda de empregos, enviesamento da nossa perceção da realidade, quebra de ética, e uma perda geral da nossa influência – enquanto seres humanos – na forma como guiamos as nossas vidas pessoais e coletivas.

No seu artigo do The New York Times sobre Inteligência Artifical, Yuval Harari escreveu sobre como as capacidades do GPT-4 e outras ferramentas já nos são difíceis de compreender totalmente, e como será ainda mais difícil conseguir imaginar os próximos níveis à medida que a tecnologia se desenvolve de forma exponencial. Voltando ao cinema, essa falta de imaginação está bem patente. Parece que os únicos termos em que conseguimos conceber a nossa relação com uma inteligência não humana criada por nós se baseiam ou no conflito violento, ou num apartheid.

E mesmo jogando nestes termos parece que a nossa conceção do futuro é algo infantil. As máquinas que nos tentam dominar ou que por nós são dominadas têm quase sempre um aspecto humanóide (dois braços, duas pernas, uma cabeça) e até feições e expressões que imitam as nossas. Agem como nós – ao ponto de não ser raro vermos um robô sentado a uma secretária a usar um computador como nós o faríamos; algo que faz pouco ou nenhum sentido. Quando fazemos guerra com estas máquinas, imaginamo-la quase sempre como um conflito físico armado. Os exterminadores da Skynet caminham por uma terra de ninguém carregando metralhadoras nas mãos. Lembro-me de uma cena em um dos capítulos da antologia Animatrix (2003) na qual um andróide monta um cavalo (também ele uma máquina) para a frente de batalha. Claro que muitas destas escolhas têm a ver com a linguagem do entretenimento e do espectáculo cinematográfico. Ainda assim, como criadores, parecemos ter dificuldades em imaginar a nossa criação sem a prender à nossa própria imagem.

O primeiro mérito de A Besta (2023), o filme de Bertrand Bonello, é o de tentar imaginar um futuro decretado pela Inteligência Artificial sem grandes dores de crescimento. No ano de 2044, as nossas vidas são regidas por uma IA, mas essa transição parece ter ocorrido de forma natural, fluida. Existem algumas angústias, sim, principalmente a sensação de falta de rumo nas vidas de alguns cidadãos – como Gabrielle, a protagonista interpretada por Léa Seydoux – devido à IA ter tornado grande parte dos empregos obsoletos. As tarefas que são permitidas aos seres humanos são monótonas, repetitivas (Gabrielle é responsável por medir periodicamente a temperatura de um centro de dados) e soam a paternalismo por parte da IA. Uma forma de nos manter ocupados com alguma coisa, uma tarefa fútil que poderia perfeitamente ser feita por um algoritmo. Os humanos são tidos pela IA como incapazes de realizar tarefas mais complexas de forma eficiente, devido à sua grande fraqueza: a incapacidade de manterem o controlo das suas emoções.

E aqui surge o outro – e principal – mérito do filme de Bonello. A audácia de tentar um salto de imaginação e aterrar um pouco à frente de qualquer debate actual sobre IA. De conferir a esta tecnologia um poder e um controlo fora daquilo que projectamos hoje. E é aqui que as coisas ficam interessantes e o filme encontra o seu lugar.

Se alguém como Gabrielle tem ambições de ser recolocada profissionalmente num cargo mais gratificante e de maior responsabilidade, pode submeter-se a uma intervenção: um processo de purificação do ADN que permite procurar em vidas passadas os gatilhos emocionais que ficaram marcados nas nossas células – que ainda hoje nos afetam – e reescrevê-los de modo a nos tornar-nos “insensíveis” a essa carga emotiva. No caso de Gabrielle, a sua bagagem emocional está ligada à forte atração que sente por um homem – Louis, interpretado por George MacKay – nos momentos em que se cruzaram em vidas anteriores: primeiro no início do século XX, depois em 2014. Essa atração existe também no futuro de 2044, quando os dois se encontram no centro de emprego. A intervenção a que Gabrielle se submete – não sem bastantes dúvidas – leva-a a estes momentos, procurando torná-los mais “inofensivos”, inócuos. Pensem no procedimento a que se submetem os ex-amantes de O Despertar da Mente (2004), de Michel Gondry, para se esquecerem mutuamente. Agora misturem isso com um pouco da filosofia budista de Vidas Passadas (2023), de Céline Song, e o que temos é uma forma de visitar as nossas encarnações passadas e apagar as camadas de inyeon que possamos acumular com outra pessoa.

A ideia original de Bonello – juntamente com Guillaume Bréaud e Benjamin Charbit, que tiveram mão na história – permite um desenvolvimento assustador para a IA: por um lado, a capacidade de penetrar com uma facilidade desarmante em questões filosóficas, religiosas, existenciais com os quais a humanidade se debate desde sempre (neste caso, a reencarnação); por outro, o pouco significado que uma máquina atribui a esse feito, tornando-o pouco mais do que outra ferramenta para controlo e formatação. Debatemo-nos atualmente com a possibilidade de os avanços na IA nos roubarem da nossa criatividade, da nossa linguagem, da nossa cultura. E que mais? Será que estamos a ter pouca imaginação sobre as formas através das quais esta tecnologia nos pode tramar? Porquê parar por aí? E se uma das suas garras se estender também em direção ao nosso passado? E a humilhação de ter uma criação nossa – artificial – a desvendar segredos do Universo, a encontrar significados que nos eludiram tanto tempo, como se nada fosse, e usá-los contra nós? Se vamos imaginar a nossa queda iminente face a esta tecnologia, ao menos que seja de forma intelectualmente arrojada!

O filme de Bonello aproveita ir buscar inspiração a um conto de Henry JamesA Fera na Selva – para nos dizer algo sobre este fatalismo em que mergulhamos no que toca à IA. Nesse conto, a personagem principal vive com a crença de que a sua vida será definida por um acontecimento terrível, que o aguarda como uma fera escondida, à espera de atacar. Gabrielle partilha deste sentimento em A Besta. No desespero de que um acontecimento singular – ainda que catastrófico – dê sentido à sua vida, a personagem de Henry James acaba por desperdiçá-la; por vê-la passar ao seu lado, com tudo de bom e de mau que lhe poderia oferecer, incluindo o amor de uma mulher.

É perfeitamente legítimo e necessário pensar – como pede Yuval Harari – nas consequências desta tecnologia. Durante toda a nossa história individual e colectiva, vivemos e fomos sendo moldados por um casulo cultural criado a partir das nossas histórias, religião, arte e linguagem. O que acontece quando esse casulo passa a ser tecido por uma inteligência que não é a nossa? De que forma isso afectará a nossa humanidade? Não temos qualquer ponto de referência para conseguir projectar cenários. E isso – não ter um ponto de referência – é algo a que vamos ter de nos acostumar a partir de agora.

Mas embarcar já no fatalismo face à IA é colocar palas nos olhos e ocultar outras coisas que nos são queridas. No título do seu artigo de opinião – que é uma piscadela de olho de Harari ao Matrix – lê-se: “You Can Have the Blue Pill or the Red Pill, and We’re Out of Blue Pills”. Que o advento da Inteligência Artifical é imparável, a partir deste momento, não está em discussão. Aliás, se as muitas sequelas do Exterminador Implacável nos dizem alguma coisa, é que não há forma de impedir o eterno retorno de uma descoberta desta magnitude, nem voltando atrás no tempo. “Ideas, uh, find a way”, poderia dizer Ian Malcolm. Mas que isso não nos iluda de que não há escolhas que podem – e devem ser feitas – a partir de agora. E por nós. Enquanto nos é permitido fazê-las. Sem desviar os olhos das coisas que nos fazem humanos.

Voltando uma última vez ao texto de Harari, este também fala em como o nosso primeiro contacto com a IA ocorreu com o aparecimento e aperfeiçoamento das redes sociais, e como saímos derrotados desse encontro. Os algoritmos que decidem aquilo que vemos criaram polarização, desinformação, e degradaram a nossa saúde mental e as nossas democracias. Ao contrário do que acontece no Matrix, as máquinas não precisam de nos aprisionar em cápsulas para nos colocar numa simulação que nos iluda e controle. Nós já vivemos nessa simulação. Alguns desses efeitos são também abordados no filme de Bonello. Ao longo do século, assistimos a uma desumanização das nossas personagens, assistida pela tecnologia – especialmente Louis, que em 2014 é um Youtuber incel com pensamentos violentos. Bonello contrapõe essa desumanização com figuras de bonecas que vai introduzindo em cada época do filme. Essas bonecas vão, como que em sentido inverso às personagens de carne e osso, ganhando traços cada vez mais semelhantes aos humanos: em 1910 ganham pele de silicone e olhos mais realistas; em 2014 já falam; em 2044 são androides inteligentes feitos à nossa imagem. Mas essa “humanização” das bonecas é só em aspecto. Já a nossa desumanização é em conteúdo.

Bonello coloca um enfeite final no seu filme, que ao mesmo tempo pontua e resume o seu tema principal. Terminada a última cena, e quando se espera que comecem a passar os créditos finais, surge uma única imagem de um código QR no ecrã. Acendendo com o nosso telemóvel, encontramos a lista de todas as pessoas que trabalharam no filme. É uma provocação muito eficaz do realizador para nos mostrar, simultaneamente, o que perdemos quando entregamos uma tarefa às máquinas, tornando-a mais “eficiente”, e o brutalismo simbólico desumanizante que o filme invoca. O desconforto é real.

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