A Travessia (2024)

“Parece-me que as pessoas vêm a Istambul para se perderem.”


Deve ser difícil afirmar a nossa identidade num ambiente pequeno, fechado, como é o de uma aldeia. Um microcosmo onde todos se conhecem e todos se observam atentamente. Onde a proximidade é tanta que se estendermos a mão pela janela acabamos por tocar na vida de alguém. Num mundo tão apertado como este, as identidades são decididas por comité: “O marido da Adelaide é um bêbado”; “a filha da Gertrudes é boa rapariga”; “o primo do Manel anda com más companhias”. Personagens são distribuídas pelos habitantes para um mais fácil reconhecimento. Uma comunidade de papéis codificados e virtualmente estáticos.

Imaginemos agora o que é crescer num ambiente assim sentindo – sabendo – à partida, que somos diferentes. Que há algo em nós que não conseguimos reconhecer em mais ninguém; nem na nossa família, nem nos amigos, nem vizinhos e conhecidos. Que não nos encaixamos em nenhum dos papéis pré-definidos desta peça de teatro onde passamos os dias. Pior: que nem sequer somos bons actores o suficiente para mascarar a diferença. Que somos notados e catalogados como “diferentes”, “esquisitos”, “errados”. Não somos a rapariga feminina, bem-comportada e submissa que se espera que sejamos. Nem o rapaz másculo, forte, violento, como é tradicional. E basta alguém perceber, sermos apanhados em falso uma vez que seja, para os boatos se espalharem por toda a comunidade e nos prenderem em âmbar; um espécime raro a estudar, discutir, julgar e condenar.

“Para Acabar de Vez Com Eddy Bellegueule” é a memória ficcionada de Édouard Louis sobre como foi crescer numa família da classe trabalhadora, numa pequena comunidade no interior da França. Melhor falando, como foi crescer nessa família e nessa comunidade sendo diferente; falando e agindo através de maneirismos delicados e femininos que rapidamente o expuseram perante os seus pais, colegas de escola, e outros vizinhos. É sobre a luta interna de Louis entre o amor aos pais que o leva a desejar ser “normal”, e o desejo de liberdade para ser quem se sente ser. Dentro da comunidade em que nasceu, por mais que tente ser “um duro”, Eddy nunca se livrará do rótulo de amaricado, bicha, paneleiro que se lhe colou desde a infância. Nunca pertencerá verdadeiramente, e por isso resta-lhe apenas sair. Trocar aquele lago pequeno que não o acolhe por um lago maior, tão grande que haja espaço para se movimentar como quiser; onde até existam outros como ele; onde, no mínimo, não seja tão notado e posto de parte. Eddy tem de ir para a grande cidade.

Tekla (Tako Kurdovanidze) é a personagem ausente do filme de Crossing – A Travessia (2024), do realizador sueco de ascendência georgiana Levan Akin. Apesar de nos chegar apenas através do diálogo de outras personagens, o seu percurso é semelhante ao de Eddy Bellegueule. Uma mulher transgénero, Tekla viu-se isolada e condenada pela pequena comunidade onde vive, na Geórgia. Procurando, como Eddy, que a sua diferença se diluísse num lago maior, fugiu para a cidade grande, atravessando a fronteira para a Turquia, procurando uma nova vida em Istambul.

Tekla pode ter tido a coragem de abandonar a sua comunidade e a sua família em prol da sua liberdade, mas não foi esquecida. Após a morte da mãe de Tekla, Lia (Mzia Arabuli) procura cumprir a promessa que fez à sua irmã: encontrar a sobrinha e trazê-la de volta a casa. Lia tem as suas próprias razões para ir em busca de Tekla. Uma professora reformada, solteira, que sempre exigiu máxima dignidade de si e dos outros, vive com o peso de não ter aceitado Tekla por quem ela é quando esta mais precisava desse amor. Por isso a sua viagem é também uma peregrinação, uma expiação dessa culpa. A motivação é a mesma das grandes personagens do cinema: tentar consertar as coisas; pô-las bem novamente.

Mas Lia nunca esteve em Istambul, e não fala turco nem inglês para se poder orientar sozinha. Felizmente, tem um sidekick. Um dos seus antigos alunos, Achi (Lucas Kankava), com quem Tekla se dava antes de fugir, diz ter a sua última morada conhecida em Istambul, e safa-se com o inglês. Vendo a oportunidade de, como Tekla, deixar a família e a aldeia para trás e tentar a sorte na cidade, vai-se agarrar a Lia e acompanhá-la, fazendo os dois uma parelha improvável.

É claro que, uma vez na cidade, esta confunde-se com um oceano imenso. Um caos permanente de pessoas, estímulos, luzes, ruídos, sujidade e sexo. A partir do momento em que entramos na cidade, ela quer desesperadamente entrar em nós. Somos solicitados, aliciados, puxados e empurrados. Encontrar Tekla é como tentar encontrar uma agulha num palheiro. Uma agulha que não quer ser encontrada. A cidade vai convencer-nos – primeiro – de que é um esforço fútil, que todas as ruas e avenidas não são mais do que becos sem saída. Que todas as portas se fecham a olhos curiosos e perguntas. Depois, vai tentar dissolver os laços que unem Lia e Achi. Como? Oferecendo-se a ambos. Mostrando-lhes as suas riquezas, até que alguma lhes toque numa carência mais profunda. Fazendo-os duvidar, ao final do dia, sobre se vieram a Istambul em busca de alguém ou de algo mais. Algo que lhes faz falta mas não sabiam. Como Tekla, de uma liberdade que não podiam ter, ou a que se negaram.

Mas Akin é um humanista, e tem um carinho demasiado grande pelas suas personagens para deixar que estas se percam assim. E sabe que um caos é só uma ordem que ainda não conseguimos decifrar. A cidade hostil, confusa da primeira metade de Crossing – A Travessia dá lugar a uma outra Istambul. Quando os nossos olhos se habituam à escuridão começamos a conseguir ver as ligações no emaranhado que temos à nossa frente. E Akin vai plantando estas ligações desde muito cedo no seu filme. Personagens que pensamos fazerem parte do cenário, existindo apenas para dar vida à cidade anónima, revelam-se na verdade de uma importância fulcral para a história. Nenhuma é supérflua, todas têm um papel a desempenhar. Mas esse papel não lhes é atribuído à partida. Na verdade, Akin brinca com isso, usa os nossos preconceitos como espectadores.

Duas das personagens que conhecemos em Istambul são crianças da rua – Ruso e Zaza (Nino Karchava e Levan Bochorishvili) –, que tocam música e pedem esmola em restaurantes, entre outros esquemas para conseguir dinheiro. Como espectadores, catalogamos estas personagens, à partida, como parte de uma história secundária, uma forma de colorir e dar movimento e vida à cidade de Istambul. Mas a sua importância para a história de Lia, Achi e Tekla só se torna clara com o desenrolar da acção. O mesmo acontece com a advogada voluntária pelos direitos de pessoas LGBT+, Evrim, maravilhosamente interpretada por Deniz Dumanli. Contrapondo à mentalidade de aldeia, de pequena comunidade, onde o nosso papel é imposto pelo juízo dos outros, Akin parece querer dizer o seguinte: na cidade o nosso papel é dependente das nossas acções e também pelos outros; mas não nos é imposto, antes emerge de forma orgânica à medida que as conexões se formam e evoluem. O Crossing do título também é isto: cruzamento. Em suma, a cidade grande que Akin retrata no seu filme não é, como Lia afirma ao chegar, um sítio onde as pessoas vêm para se perder. É um ponto de encontro, onde as pessoas vêm para se encontrar a si mesmas e umas às outras*.






















* Akin chega a fazer uma última brincadeira com o espectador, mesmo antes do final. E eu, caindo na esparrela, quase que condenei todo o filme por forçar demasiado e partir a suspension of disbelief de forma tão deselegante. Mas, afinal, estava tudo bem. Alguém sabe o que estava a fazer e Crossing termina com um travo agridoce na intensidade certa.

Próximo
Próximo

A Besta (2023)