A Baleia (2022)
Não sei o que me possuiu para escolher ver este filme logo no dia de Natal, o epicentro de uma maratona de comezainas e repastos que só acalma verdadeiramente lá para o ano que vem. Talvez sinta a culpa que vem com o alarvar e, pensando assim, é mesmo capaz de ser o estado de espírito ideal para finalmente ver A Baleia (2022), de Darren Aronofsky.
A culpa é um grande fantasma que paira sobre o filme. Charlie (Brendan Fraser) abandonou a sua filha quando decidiu separar-se da mulher para viver um romance com um dos seus alunos. Após a morte deste, Charlie entrega-se à compulsão alimentar, e em breve o peso do seu corpo virá a rivalizar com o peso que carrega na consciência. Caminhando com dificuldade entre as divisões da sua triste casa, da qual já não sai, e onde toda a ação do filme tem lugar, tornou-se um monumento vivo da sua própria condenação. Escondido do mundo, cumpre uma pena auto-imposta, enquanto a sua saúde se vai deteriorando.
O filme é baseado na peça de Samuel D. Hunter, que escreveu também o guião. Logo à partida, em filmes baseados em peças de teatro cuja ação se passa toda num espaço único, pode dar-se o risco de o realizador “se ausentar”. Há limites para o que a câmara consegue fazer dentro de quatro paredes, mas isso não significa que não se possa ser criativo. Atenção, não estou a dizer que toda a gente tem de saber filmar interiores com a verve do Bong Joon-ho no Parasitas (2019). Nem com a ansiedade claustrofóbica que o próprio Aronofsky usou no seu filme anterior, mãe! (2017). Qualquer um desses estilos seria pouco apropriado a este drama contido. Mas, pegando num exemplo recente, M. Night Shyamalan conseguiu filmar o seu drama-passado-num-espaço-único-com-temas-religiosos Knock at the Cabin (2023) de forma mais cativante do que vemos aqui.
De facto, se o nome de Aronofsky não estivesse nos créditos, sobraria talvez só um motivo óbvio para o associarmos a A Baleia. Apesar das extravagâncias visuais e temáticas na sua filmografia como Cisne Negro (2010), O Último Capítulo (2006), Noé (2014), é n’O Wrestler (2008) que encontramos um paralelismo mais forte. Ambos são filmes mais despidos de elementos fantásticos (confesso que nunca vi o A Vida Não é Um Sonho, de 2000, mas dizem-me que tem ali uns toques de surrealismo), e ambos se centram no corpo dos seus protagonistas/actores.
Mais: existe uma camada forte de meta-acting que alimenta estes dois filmes. Mickey Rourke acumulou lesões durante os seus anos como boxeur profissional, ao ponto de desfigurar (literalmente) a imagem de sex symbol que havia adquirido em Hollywood, nos anos 80. É esse o corpo que empresta a Randy “The Ram” Robinson, a personagem que interpreta n’O Wrestler, um lutador que inflige no seu corpo toda a espécie de ferimentos para entreter o público. Brendan Fraser passou por vários problemas pessoais que o levaram a uma depressão severa, e que alterou profundamente o seu aspecto físico também. Em anos recentes, habituamo-nos a ver fotos suas onde surgia pálido, calvo, e com excesso de peso. É difícil defender que Aronofsky, tanto num caso como no outro, não está a vampirizar a imagem pública dos seus actores para elevar os filmes que protagonizam*.
Tudo isto sem desmérito para Brendan Fraser, que tem uma excelente interpretação, e fá-lo com duas coisas contra si: o fat suit onde o meteram, que poderia reduzir a sua performance a um gimmick; e o próprio filme, que parece que está sempre prestes a mergulhar no excessivamente dramático. É por ele que viemos, e é por ele que ficamos. Duvido que ainda estejamos a falar d’ A Baleia daqui a dois ou três anos. Se estivermos, espero que seja para continuarmos a celebrar a ressurreição da carreira do seu actor principal. Que o seu regresso seja mais duradouro que o de Mickey Rourke.
Um último comentário. Talvez seja falha minha, talvez seja algo que se perdeu na transposição da peça para cinema. Mas o Moby Dick, de Herman Melville, é uma obra pejada de simbolismo e subtexto. As poucas associações que vi no filme ao livro parecem-me superficiais, e mal encaixadas. Esperava, talvez, que merecesse mais o seu título, e não se ficasse por uma espécie de fat joke.
*Digam lá se não conseguem imaginar um universo paralelo no qual, em vez de Brendan Fraser, temos Gerard Depardieu neste papel. Realizado por Gaspar Noé.