Pinball: The Man Who Saved The Game (2022)

Nestes últimos dias do ano, ainda há tempo para tentar recuperar filmes que nos passaram pelo radar, mas que acabamos por não ver na altura. Eu só ouvi falar de Pinball: The Man Who Saved the Game (2022), dos irmãos Austin e Meredith Bragg, pela primeira vez, em março, por causa de uma crítica publicada na New Yorker, pelo Richard Brody. Depois disso esqueci-me completamente do filme, ou confundia-o com outro biopic deste ano sobre um jogo, também protagonizado por um homem de bigode: Tetris (2023), de Jon S. Baird, que saiu na Apple TV

Felizmente, o Richard Brody fez-me o favor de o incluir na sua lista de 10 melhores filmes do ano, e relembrar-me assim da sua existência. 

Pinball… conta a história de Roger Sharpe, um jornalista da revista GQ, fascinado por jogar em máquinas de pinball desde os seus tempos da universidade, e de como a sua paixão pelo jogo ajudou a reverter as leis em vigor na altura, que proibiam esta atividade em Chicago e Nova Iorque (por ser equiparada a um jogo de azar). 

Num ano de biopics sobre personalidades quase maiores-do-que-a-vida como Oppenheimer (2023), de Christopher Nolan, ou Maestro (2023), de Bradley Cooper, não é de estranhar que Pinball… tenha passado despercebido. Na parte que me toca, quanto menos elevada a “parada” neste tipo de filmes, mais eu gosto deles – e.g., Blackberry (2023), de Matt Johnson, ou o American Animals (2018), de Bart Layton. Os irmãos Bragg sabem perfeitamente que estão a trabalhar numa escala muito mais pequena, mas isso também lhes dá mais liberdade para brincarem com o material, e com o próprio formato. 

O facto de o cast estar virtualmente desprovido de caras conhecidas também ajuda. Não temos razão nenhuma para ver estas pessoas como qualquer outra coisa que não seja as personagens que estão a interpretar. É diferente de darmos por nós a pensar, a meio do Oppenheimer, “que grande interpretação que o Cillian Murphy está aqui a ter”

Livres do peso da personalidade e acontecimentos que estão a retratar, os irmãos Bragg conseguem esvaziar o seu biopic de pretensiosismo, e em vez disso enchem-no de charme. Conseguem reproduzir os anos 70 em Nova Iorque de forma convincente, enquanto chamam a atenção para o seu orçamento reduzido. Estruturam o filme com todos os plot points de um biopic tradicional, e depois vão sabotando cada um. 

O golpe de génio é ter dois Roger Sharpe a dividir o ecrã em vários momentos: um mais novo, a viver os acontecimentos, e um mais velho, a comentá-los simultaneamente. O mais novo é interpretado por Mike Faist, a quem colaram um bigode postiço tão absurdo que é, ele próprio, uma personagem do filme. Eu passei grande parte do filme a acreditar que o Roger Sharpe sénior era o próprio, numa espécie de meta-narração parecida com o American Animals (2018). Mas não, é mesmo outro actor, Dennis Boutsikaris, a visitar várias cenas do filme enquanto elas estão a decorrer, e a ser, mais do que pouco confiável, um narrador por vezes hostil, insistindo em tomar as rédeas do filme, e aproveitando cada oportunidade para contradizer os próprios realizadores. 

Tudo isto poderia facilmente fazer Pinball… cair na paródia de um biopic, mas o equilíbrio é feito com um centro emocional muito preenchido. O truque do filme é fazer-nos acreditar que viemos ver a história de um homem que consegue salvar o jogo do pinball por ter o apoio da sua namorada e do filho desta (interpretados por Crystal Reed e Christopher Convery, respectivamente). Na verdade, estamos a ver um filme sobre como a luta para salvar o jogo ajuda Roger a conquistar o que realmente importa: construir uma família com estas duas pessoas. Dito assim pode parecer lamechas, mas o filme consegue fazer isto de tal forma que, quando damos pelo engano, já estamos demasiado envolvidos na relação destas personagens para não nos entregarmos completamente*. 








* Há muito tempo que não via, num filme, cenas de dating tão charming como aqui. Fizeram-me lembrar, embora num tom diferente, o first date entre Robin Williams e Amanda Plummer em O Rei Pescador (1991), de Terry Gilliam. 

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