Ferrari (2023)

Michael Mann está de volta, 8 anos após o seu último filme, Blackhat (2015). Deste vez, com um biopic sobre o fundador da famosa marca de automóveis, Enzo Ferrari, baseada na biografia do jornalista desportivo Brock Yates, Ferrari: o Homem por trás das máquinas

O filme de Mann não é um biopic do-berço-até-à-cova, focando-se somente num Verão, em 1957, particularmente crítico na vida de Enzo (Adam Driver), tanto a nível profissional como pessoal. Um ano após perder o único filho que teve da sua mulher, Laura (Penélope Cruz), Enzo esconde, ao mesmo tempo, um filho bastardo de uma amante, Lina (Shailene Woodley). Enquanto isso, a existência da marca que Enzo criou é ameaçada por problemas financeiros, que o pressionam a procurar fundir a companhia com outras marcas. Para ganhar vantagem num prospetivo negócio, a Ferrari tem de vender mais carros. E a melhor forma de o fazer é ganhar a Mille Miglia, uma corrida entre Brescia e Roma. 

Esta corrida é o acto final do filme de Mann, e onde o realizador consegue pôr a uso a sua técnica para máximo efeito. Mann entrecorta longos planos das paisagens italianas com close-ups dos pilotos, mudanças, e da estrada em frente (como se estivéssemos no banco do passageiro). Os close-ups são, na verdade, muito usados ao longo de todo o filme, não só nas cenas de corrida. Como se Mann procurasse sondar o tumulto interior da sua personagem principal em momentos-chave, apenas para ela o esconder até do realizador (na cena onde Enzo Ferrari demonstra maior emoção, falando com o seu falecido filho no cemitério, a câmara aproxima-se apenas para ele nos virar a cara quando as lágrimas surgem). 

O cinema de Michael Mann está cheio de personagens masculinas que se autoimpõem uma solidão, um distanciamento emocional, particularmente das mulheres com quem convivem. Seria interessante ver esse seu lado mais explorado na sociedade italiana, e a cultura do machismo. Em 1957 (e ainda hoje?), a corrida de automóveis é um desporto maioritariamente de homens, e os homens em Ferrari (2023) estão sozinhos. É sozinho que Enzo visita a campa do filho, e é em solidão, nos seus quartos de hotel, que os pilotos escrevem cartas às suas amadas, despedindo-se como se fossem soldados a ir para a guerra, sabendo que poderão não voltar da corrida no dia seguinte. 

Existe também um lado de circo romano nas cenas de corrida. Quando vemos Enzo a falar brevemente com cada um dos seus pilotos à medida que estes arrancam, é como se o imperador abençoasse os gladiadores antes de entrarem na arena (isto só é reforçado quando o trajeto da corrida se cruza com o Coliseu, em Roma). E as cenas de corrida em si invocam as cenas de quadrigas em filmes clássicos como Ben-Hur (1959)

Por falar nas cenas de corrida, tenho de falar dos dois acidentes que são retratados no filme de Mann, o primeiro ao início, e o segundo já quase no final. Ambos pretendem ser momentos showstopper no filme, chocantes por repentinos e violentos. Mas para mim pecam por exagero. Sendo tão over-the-top ao ponto de quase serem cómicos (e com efeitos digitais pouco conseguidos) em vez de me prender tiraram-me do filme, completamente. A cena do segundo acidente, em particular, parecia-me que poderia ser cortada e o efeito seria muito mais forte. Mostrar apenas os segundos antes do despiste, e mais tarde apenas os destroços e a chacina causado pelo mesmo. 

O outro ponto menos positivo do filme prende-se com a interpretação do Adam Driver. Normalmente, é dos actores com maior presença no ecrã, ajudado pelo seu físico e pela sua voz. Como Enzo Ferrari, essa presença parece diminuída, como se o actor estivesse a vestir um fato que não lhe assenta muito bem (uma imagem que sem dúvida irá surgir a quem vir o filme). O seu sotaque italiano*, e a caracterização, parece trazer-lhe dificuldades em elevar a sua interpretação acima da caricatura. Um problema que Penélope Cruz não tem com a sua personagem. Mas ela está como peixe na água em papéis como este. A sua interpretação é poderosa ao ponto de conseguir potenciar a de Driver, quando estão em cenas juntos. Embora cenas haja em que a qualidade do diálogo não faz favores a nenhum deles. 

Ferrari (2023) é um filme cujo título pretende funcionar em três níveis. É um filme sobre o homem, Enzo Ferrari, e é um filme sobre a marca que criou. Mas é também sobre o significado do próprio nome Ferrari. E da importância que isso tem, em particular para Piero, o filho bastardo que Enzo hesita em legitimar conferindo-lhe o seu apelido, apesar dos pedidos da sua amante. Um nome que carrega consigo uma história de prestígio, e pecados. 









* Não vi House of Gucci (2021), do Ridley Scott, por isso não posso comparar o sotaque de Driver aqui com o desse filme.

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